Segundo o Anuário de Minas Gerais
de 1911 existiam no começo do século XX 231 casas e sobrados na área urbana
de Cachoeira. Hoje este número não deve ultrapassar 20. Junto com as construções
se foram algumas capelas como a de São João [localizada no começo da Rua das
Dores], pelo menos meia dúzia de chafarizes, todo trecho do calçamento primitivo,
centenas de metros de muros de pedra e etc, etc. O
mais
alarmante é que esta destruição se alastra até os nossos dias e de tal forma
que, já habituados com este descaso cultural, raramente percebemos esta perda
irreparável. Tal é o caso da imponente casa que existia [existia porque está
atualmente tão descaracterizada que 'quase' não se trata da mesma casa] na
encruzilhada das ruas Afonso Maximiliano, Dores e N. Sra. Auxiliadora. Era
uma grande construção do final do século XIX ou começo do XX com várias portas
e janelas de verga triangular (à feição dos chalés), com dimensões bem proporcionadas
e adequação perfeita à área urbana (o que hoje é raro). Recentemente as únicas
janelas deste estilo que ainda existiam foram retiradas para uma reconstrução
que desgraciosamente modificou a fachada e fez Cachoeira perder mais este
resquício de sua história. Há algumas outras importantes edificações que estão
em situação de risco, como o Chalé das Mercês (situado próximo à Igreja das
Mercês, ver foto) que ameaça ruir por se achar suas estruturas muito abaladas
pela ação do tempo, como o telhado que já começa a desabar. Ao lado deste
tipo de exemplo triste, porém, há algumas raras exceções de conservação e
conscientização que devemos assinalar.
Próximo à sede da Banda de Baixo,
em frente à Farmácia Bastos, há uma imponente construção eclética datada do
começo do século XX. Queremos assinalar com louvor o esforço despendido pelos
proprietários na sua recente restauração. Com criatividade e boa vontade foi
possível recuperar toda a fachada principal, com seu gracioso alpendre e patamares.
Até os jardins frontais foram recuperados, dando irrecusável prova de que
é possível o moderno e o antigo coabitarem sem prejuízo mútuo. Mais recentemente
outro fato engrandeceu nossa cultura: a restauração do Chalé situado no final
da Fonte de Fora. O belo chalé de arquitetura leve e ornatos apurados, do
melhor gosto da época (da virada do século XIX para o XX), continua sendo
uma das mais belas construções civis de Cachoeira, e, ao
que parece, se depender dos proprietários ainda vai continuar sendo por muito
tempo. A restauração bem planejada recuperou a fachada com as três janelas
ogivais, emolduradas com finos desenhos recortados na madeira (únicos deste
estilo em Cachoeira), as cornijas e cimalhas do frontão, o óculo, e até a
pequena varanda lateral. O cuidado com o impacto visual foi tão apurado que
até a portada de acesso aos jardins frontais da casa foi recuperado conservando-se
as duas colunas compósitas estilizadas que enfeitam a entrada da casa. A "Casa
do Fiscal", como é conhecida (alusão ao antigo proprietário José Estanislau
Peixoto, falecido esposo da atual proprietária Maria Valente Peixoto), é exemplo
vívido de preservação de nosso patrimônio cultural.
Gostaríamos que os proprietários de casas dotadas de interesse histórico, em vez de destruírem ou descaracterizarem seu imóvel, tenham em mente o seu valor cultural e sigam os exemplos de conservação citados. Sabemos, porém, que muitas vezes os donos não possuem recursos financeiros para arcar com despesas de manutenção ou restauração, vindo quase sempre o imóvel a ruir. Exortamos a estes proprietários a nos procurarem para podermos tentar encontrar outras saídas que não a pura e simples demolição. Quiçá o Chalé das Mercês tenha o mesmo destino que o seu congênere da Fonte de Fora, ou vai acabar por ruir a exemplo de tantos outros.
São Bartolomeu, Tradição e Preocupação
Das maiores tradições do solo mineiro está a Festa de São Bartolomeu e do Divino Espírito Santo, que se realizou brilhantemente em agosto passado, mês do padroeiro. A origem da festa remonta ao século XVIII, mas ninguém sabe ao certo como começou. Conta-se sobre isso várias lendas, envolvendo São Bartolomeu e os moradores locais. Na verdade pouca coisa há de documentado sobre a origem do histórico Arrayal de São Bartolomeu. Sabe-se, porém, que sua fundação remonta aos últimos anos do século XVII. Da igreja, só pela análise estrutural, vê-se que é uma preciosidade do barroco primitivo, sendo das primeiras a se erguerem nas Minas.
Pela
rua principal, com seu gracioso casario, pode-se ver três curiosos oratórios
públicos, raros neste estilo. Na igreja principal entre outras preciosidades
há um interessante sino de madeira, ainda mais raro - diz-se que só há mais
um no mundo! No alto da colina está a solitária igreja de N. Sra. das Mercês,
já com seus 230 anos. São Bartolomeu é também, desde o século XIX, a terra
dos doces e das guloseimas, sendo por muitos anos o maior produtor de goiabadas
do país. Impossível não provar uma! Por toda parte o passado se faz sentir
pela misticidade do ambiente. As torres da Igreja de São Bartolomeu e os telhadinhos
das casas, vistos ao longe, perdidos por entre as montanhas, dariam um dos
mais perfeitos cartões postais de Minas!
É importante notar que a população dá provas de que é salvaguardadora destas relíquias. Preservam com afinco suas raízes culturais, dando um belo exemplo de preservação cultural. A tradição das Touradas e da Coroação do Rei e da Rainha são só uma prova disto. O entusiasmo popular durante a festa do padroeiro diz muito do presente e do passado. É algo realmente belo de se ver. Mas sempre há algo com que se preocupar. Se a população deu provas de estar cônscia - afastando até alguns que pretenderam desfigurar-lhe as festividades do padroeiro - infelizmente o poder público tem se omitido na preservação do patrimônio cultural de São Bartolomeu. Não só a igreja precisa de reformas, mas o casario já rui em vários locais. A população na maior parte das vezes não tem condições financeiras de arcar com as restaurações, daí a importância de subvenções e tombamentos para se recuperar este patrimônio brasileiro que é São Bartolomeu.
Primeiro passo: parceria para salvar a Matriz

A Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, um dos mais notáveis monumentos do Barroco Mineiro, vive a triste realidade de grande parte dos bens patrimoniais que formam o acervo histórico, artístico, arquitetônico e cultural dos monumentos brasileiros. Em Minas, à exceção dos monumentos de nossas cidades históricas (como se todas cidades não fossem históricas) como Ouro Preto, Tiradentes e São João Del'Rey, os outros monumentos estão se perdendo.
Já em algumas localidades a comunidade começa a se organizar e buscar junto aos responsáveis soluções para preservar estas riquezas culturais. E aqui se inclua Cachoeira do Campo. Fruto de um convênio firmado entre a Secretaria de Estado da Cultura, FAOP (Fundação de Arte de Ouro Preto) e AMIC (Associação Cultural Amigos de Cachoeira do Campo) foi realizado em setembro/outubro 2002 o Curso de Noções Básicas de Conservação de Obras de Arte. O curso foi um sucesso, formando cerca de 15 conservadores para nossa região.
Parte das aulas práticas do curso foi realizada no interior da Matriz. Os alunos tiveram oportunidade de fazer um relatório sobre o estado de conservação, além de participarem duma grande limpeza no interior da igreja. Constataram a triste realidade atual da Matriz: danos profundos à parte artística, à estrutura arquitetônica, e, o que é mais alarmante, o estado precário em que se encontra a rede elétrica da igreja, já defasada e cheia de "gambiarras", colocando, a MATRIZ EM RISCO DE INCÊNDIO. O IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) entregou à Paróquia um novo projeto elétrico, orçado em cerca de 25 mil reais. O grupo de formandos visa criar em Cachoeira uma Comissão Permanente de Conservação, cujo primeiro objetivo é conseguir recursos para a reforma desta rede elétrica. Contatos com a Paróquia já estão sendo feitos.
Mas a preservação da Matriz também depende de você. Vamos nos unir, não vamos deixar nossa Matriz desaparecer!
O último
pé de jabuticaba
(ou parágrafo para o ano de 2020)
O maior símbolo de Cachoeira, suas jabuticabeiras, está desaparecendo lentamente. Todos os dias derrubamos uma para fazer valer nossa autoridade. Mas, que autoridade temos de destruir alguém que existia antes da gente nascer, antes mesmo de nossos avós? Nossas árvores seculares estão desaparecendo juntamente com os quintais que tornaram Cachoeira famosa. Não derrubem nossas jabuticabeiras, elas são um patrimônio cultural de todos nós! Se pudessem falar, lhe pediriam socorro. Agora, se quiser derrubá-las para aumentar sua varanda ou sua área de lazer não leia o próximo parágrafo. Recorte-o e guarde-o. Leia-o somente no ano 2020.
Era
uma vez o último pé-de-jabuticaba. Era velho, muito velho mesmo. Nasceu nos
fundos dos quintais de Cachoeira há muito tempo. Trepou em suas galhas muita
gente importante: um tal de Joaquim José que todos chamavam de Tiradentes,
um menino chamado Afonso de Lemos que depois se tornou um grande padre, e,
até mesmo, um certo Juscelino que todos chamavam de JK. Mas, agora, a árvore
imponente tinha se tornado um estorvo. Não a queriam mais, decidiram derrubá-la.
Seus irmãos "jaboticabósios" já tinham virado lenha antes dele. E agora era
sua vez. Iam derrubá-lo por que não gostavam dele, era um pé mau criado. Emporcalhava
a varanda com seus frutos e folhas a virar barro melequento. E ainda tinha
essa tal da varanda que ia ser aumentada e, por capricho ou esquecimento,
o projeto previa o seu fim. No seu lugar se erguerá, imponente e no melhor
mau gosto, a varanda! E ele? Ah, ele seria esquecido. Meus filhos nunca subirão
nas suas galhas, não se lambuzarão com seus frutos. Meus filhos não conhecerão
os pés-de-jabuticaba da minha infância, por que ele era o último pé-de-jabuticaba
de Cachoeira. (Alex Bohrer)

A educação patrimonial é a forma mais eficaz de preservação do patrimônio cultural. As leis de tombamento nada valem de verdade se não buscarem formas de atingir e inserir a comunidade local. O que representa aquela igreja? Aquela casa? Aquela ponte? Aquela comida? Por que elas têm que ser preservadas? O que é patrimônio cultural? São perguntas que devem ser esclarecidas num trabalho de educação patrimonial.

Nosso projeto é pioneiro na região neste tipo de iniciativa. Já há anos desenvolvemos nas escolas, junto a professores e alunos, um programa de palestras e incursões pelas ruas de Cachoeira. Todos os alunos já conhecem Cachoeira, mas nestes passeios eles aprendem a reconhecer Cachoeira, a revisitar Cachoeira. A Matriz, por exemplo, passa a ser vista não somente como uma igreja, mas como repositório da história e cultura cachoeirense, símbolo da arte brasileira; a venda do "Seu" Silvio Xavier deixa de ser só uma velha venda e passa a ser um museu vivo, fascinante; aquele velho "pirulito" da Praça passa a ser um interessante chafariz, símbolo do antigo sistema de abastecimento de água, muito diferente da comodidade das torneiras atuais; etc.

O resultado? Somente um novo tipo de aprendizado de geografia e história in loco? Não, muito mais. Estes pequenos detalhes são as sementes de um novo homem, de um novo cidadão. Serão pessoas conscientes da importância da nossa cultura e da nossa história. Mas não história morta em velharias e sim história viva: viva nas ruas, nas brincadeiras, nas músicas, nos idosos e nas próprias crianças. A cultura corre viva em nossas veias. Esquecê-la é esquecer quem somos e nos vender à alienígenas. Nossas crianças são a esperança de que isso não ocorra. Não conhecerão, por certo, muito do que possuímos hoje (pois ainda todos os dias se destrói um pouquinho da velha Cachoeira), mas passarão aos seus filhos, nossos netos, um valor muito maior: o valor da educação.

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