Quem de Cachoeira confina o olhar ao poente divisará ao fundo do vale verdejante as torres da Matriz de São Gonçalo de Amarantina. Cresceu a cidadezinha aos pés da velha capela que mais tarde os féis transformariam em uma grande igreja, com duas torres imponentes. Insiste a lenda em dizer que a atual igreja, que no século XIX substituiu a antiga capelinha, é replica em menor tamanho da Igreja de São Gonçalo do Amarante em Portugal, fato até agora não confirmado. Possui a Igreja de São Gonçalo infelizmente poucas relíquias. Há vinte anos atrás sua capela-mor foi destruída para dar lugar a uma moderna e seu altar principal foi vendido! A imagem original do santo também se perdeu. A descaracterização da Igreja de São Gonçalo foi um dos principais exemplos de como nosso patrimônio cultural é tratado. A igreja conserva ainda hoje em seu interior, de interesse artístico, dois altares de estilo D João V e um curioso chafariz de pedra. O maior interesse artístico da construção está, porém, na curiosa e imponente fachada com suas torres quadrangulares, que merece ser apreciada pelo visitante.
Pouco distante da igreja encontram-se
as ruínas
de
uma imensa casa construída de pedra seca. Atribui a tradição popular que o
casarão foi construído pelos primeiros bandeirantes que lá chegaram nos idos
do século XVII. Parece realmente, pela análise estrutural, que se trata de
construção muito antiga, quiçá contemporânea da famosa Casa de Pedra de Cachoeira
do Campo, aparentando-se com ela estilisticamente. Porém não foram encontrados
documentos acerca da verdadeira origem da Casa dos Bandeirantes e, nem tampouco,
da própria Amarantina. Acredita-se que o povoado tenha surgido em meados do
XVIII quando a produção agrícola de Cachoeira entrou em seu apogeu, reservando
para os agricultores da
baixada
o plantio de alguns produtos especiais cujo terreno encharcado era propício,
como o alho, por exemplo. Esta baixada, porque estava constantemente inundada
pelas águas do Rio Maracujá, recebeu o nome de Tijuco (que significa brejo).
Posteriormente São Gonçalo do Tijuco, em homenagem ao santo vindo de Portugal.
Coexistiu daí em diante com a denominação de São Gonçalo do Amarante, em lembrança
da cidade portuguesa de origem da imagem. No século XX mudaram-lhe o nome
para Amarantina.

Em Amarantina está localizado o famoso Museu das Reduções que guarda réplicas de monumentos históricos brasileiros. Outra relíquia cultural de Amarantina é a Cavalhada, tradicional festividade mineira que encontra aqui um de seus últimos refúgios.
Amarantina está a 5Km de Cachoeira do Campo.

Em volta da igreja a grama verde empresta um ar
bucólico ao lugar, tão típico das pequenas cidades do interior mineiro. Sobre
o verde da grama se ergue, majestosa e imponente, a antiga Matriz de Santo
Antônio, com sua fachada cheia de volutas e cunhais de cantaria. A bela igreja
é uma lembrança persistente dos tempos áureos, dos dias do século XVIII em
que Casa Branca era um próspero povoado produtor de ouro, muito ouro. Às margens
do Rio das Velhas estabeleceram-se desde o alvorecer do século XVIII
muitos
mineradores vindos de todos recantos. Entre estes um se destacou emprestando
seu nome como primeiro topônimo do arraial florescente que se chamou de Santo
Antônio das Minas de Baltazar de Godoy. Este certo Baltazar possuía uma ermida
com três altares barrocos e uma imagem de Santo Antônio. Quando em meados
do século XVIII deu-se início a construção da Igreja Matriz estes altares
foram inseridos no interior da igreja, como estão até hoje, preservados na
nave.
O
nome Santo Antônio da Casa Branca deve-se, sem dúvida, à coloração das casas
que em geral vigorava nas minas, casas caiadas, casas alvas, casas brancas.
A principal construção do povoado continua sendo, contudo, a Igreja de Santo
Antônio, que é uma das mais graciosas igrejas de Minas, uma obra de arte talhada
nas montanhas. Poucos dados temos sobre a construção da antiga Matriz da Casa
Branca. O início das obras se deu em 1757 e o fim provável foi em 1764, data
existente sobre a cruz. Foram arrematantes da obra José Coelho de Noronha,
Antônio Moreira Gomes e Tiago Moreira, conhecidos empreiteiros da época. A
Igreja de Santo Antônio foi construída originalmente para ser Matriz.
No século XIX, porém, com o declínio econômico da
região, a população local se esvaiu. A Igreja de Santo Antônio passou então
a ser filial da Matriz de Nossa Senhora de Nazaré de Cachoeira do Campo, como
é até hoje. Na sua obra sobre Cachoeira o Pe. Afonso dedica um longo capítulo
especial à Casa Branca, tal a ligação histórica entre os dois povoados irmãos.
No século XX o poder público mudou o velho e histórico nome do povoado para
Glaura, alusão a um poema famoso. Este fato é lamentado pelo pesquisador Salomão
de Vasconcelos que viu nisto uma depredação de nossos topônimos antigos. O
certo é que a população ainda conserva o nome primitivo, chamando a todo momento
o povoado de Casa Branca, uma pequena jóia das Minas Gerais.
Casa Branca fica a 7Km de Cachoeira do Campo. Maiores informações sobre o distrito podem ser visualizadas no site: www.glaura.hpg.com.br

No dia 1° de janeiro de 1888 o céu azul iluminou a singela estaçãozinha ferroviária do lugar. Todas as construções do complexo ferroviário cheiravam tinta fresca, iriam ser inauguradas naquele dia por um visitante ilustre. A grande locomotiva cuspiu fumaça e fogo no alto da serra. O vagão luxuoso aportou no patamar da estação. O velhinho de cartola e barba branca, que desceu logo em seguida, despertou vivas na multidão de ferroviários, que por anos a fio trabalharam na execução daquela obra gigantesca. O velhinho de barbas brancas era o Imperador D.Pedro II, sua missão naquele dia era inaugurar o complexo ferroviário de Rodrigo Silva, construído sobre as velhas fazendas da antiga José Correia. Pouca gente conhece esta cena ou já ouviu falar nisso, mas assim nasceu oficialmente Rodrigo Silva.
Os primeiros registros relativos ao local denominado
José Correia sempre estão ligados à Santa Quitéria do Alto da Boa Vista, antiga
paragem colonial, hoje abandonada, nas proximidades de Rodrigo Silva. A mineração
de topázio sempre esteve presente na história do lugar. Viajantes estrangeiros
já registravam a exploração de topázio no início do século XIX. Algumas destas
lavras de topázio eram gigantescas empregando centenas de escravos. Até a
chegada dos ferroviários José Correia compunha-se de fazendas espalhadas por
léguas de distância. A mais famosa delas é a Fazenda do Fundão, ainda existente.
Nesta fazenda nasceu em 1870 Alfredo Fernandes dos Prazeres personagem importante
na construção da nova cidadezinha ferroviária. Quando no começo da década
de 1880 fez-se o projeto d
a
estrada de ferro ligando o Rio de Janeiro à Ouro Preto, projetou-se também
uma nova paragem a se estabelecer em José Correia, que teria seu nome mudado
para Rodrigo Silva em homenagem a um ministro imperial. O complexo ferroviário
inaugurado em 1888 em volta da estação estendeu-se posteriormente de um lado
a outro, paralelo à estrada de ferro. Alfredo Fernandes estabeleceu em Rodrigo
Silva casas de comércio e doou o madeiramento para a construção da Igreja
de Santo Antônio, padroeiro do lugar. As mercadorias chegadas na estação eram
então distribuídas pela região, por vários tropeiros a serviço do jovem fazendeiro.
No começo do século XX fundou-se a Sociedade Musical Santa Cecília de Rodrigo Silva, símbolo primeiro da cultura desenvolvida pelos ferroviários. No arquivo desta banda encontram-se composições feitas pelos ferroviários, demonstração de grande apuro musical. Hoje nos trilhos de Rodrigo Silva não passam mais trens, mas a cultura do topázio continua, com a exploração do famoso topázio imperial, único do mundo.

Rodrigo Silva fica a 12 Km de Cachoeira do Campo.
Amanheceu
no Quartel da Cavalaria em Cachoeira. Os soldados aquartelados começam seus
exercícios matinais. Alguns correm até às fazendas localizadas à sudoeste
de Cachoeira, a uns 6Km dali. Vão buscar leite fresco, tirado na hora, para
abastecer o Regimento. Corre o último quartel do século XVIII. Um pequeno
povoado começa a nascer entre aquelas fazendas. Uma pequena capela em honra
a Santo Antônio é erguida. Uma capela de Santo Antônio no lugar onde se produz
leite. Uma capela de Santo Antônio no leite. Uma capela em Santo Antônio do
Leite! Assim nasce o pequeno povoado, envolto nas montanhas, um povoado de
curioso nome, que a população da região abreviou só para Leite.
Desde sua fundação Santo Antônio do Leite esteve ligado à Cachoeira. Várias famílias dos dois locais possuem troncos familiares comuns. Santo Antônio do Leite só se separou oficialmente de Cachoeira como distrito autônomo nos primeiros anos do século XX. As fazendas da região abasteciam Cachoeira de leite e bananas - Santo Antônio do Leite já foi um dos maiores produtores de bananas do Brasil!
O
principal monumento do Leite, visível de vários pontos e ao longe, é a Igreja
de Santo Antônio. Conta a lenda que certo personagem apareceu por lá nos idos
do século XIX. Veio cumprir uma promessa: construir uma grande igreja para
Santo Antônio, santo de quem alcançara um milagre. Com muito esforço e esmola,
por fim, a capelinha deu lugar a uma ampla e graciosa igreja. Para decorar
os tetos do templo contrataram um filho de Santo Antônio do Leite, o famoso
pintor mineiro Honório Esteves. Contam os mais antigos que Honório cumpriu
então uma promessa feita quando criança, que ele decoraria o teto da igreja
de sua terra natal. Passado o tempo cumpriu o que prometera agora como renomado
artista, louvado até pelo próprio imperador D. Pedro II. Na década de 80,
infelizmente, a capela-mor da igreja foi derrubada para ampliação do espaço
interno e o altar principal se perdeu. Fruto da falta de conscientização patrimonial
este tipo de ação tem suprimido muitas
páginas
da história de Minas. Porém o visitante pode ainda vislumbrar a grandiosidade
das pinturas de Honório Esteves conservadas na igreja de Santo Antônio do
Leite. As obras de Honório Esteves estão entre os principais legados do século
XIX à cultura mineira.
Santo Antônio do Leite está a 7Km de Cachoeira do Campo.
Entre
os aprazíveis vilarejos coloniais mineiros se acha a pequena São Bartolomeu.
Pelas ruas e campos o visitante faz uma viagem no tempo. Ao longe podem-se
avistar as torres da misteriosa Igreja de São Bartolomeu, principal monumento
do lugar e um dos principais monumentos artísticos e arquitetônicos do Brasil.
A história da igreja, assim como todo povoado, é envolta em mistério. Pouquíssimos
documentos chegaram até nós. O que se sabe é que o monumento é dos mais antigos
erguidos em solo mineiro. Sua fachada e seu interior bem preservados, sem
superposições posteriores, fascina o visitante, pela beleza e misticidade
do ambiente. Na torre esquerda há guardada uma preciosidade incomum: um sino
todo feito em madeira! Acredita-se que em todo mundo só há mais um do tipo.
E já houve até quem percebesse influência árabe na decoração da famosa igreja!
Em agosto a pequena e antiqüíssima imagem de São
Bartolomeu é alvo de romarias vindas de várias partes do Brasil, à procura
dos milagres do padroeiro. Conta-se que nas proximidades do povoado o próprio
São Bartolomeu foi visto lutando com o diabo em pessoa! Verdade ou não, aos
pés da imagem está um diabo derrotado pela espada milagrosa do apóstolo. Na
festa do famoso santo há de tudo, o mundo profano se mistura aqui com o sagrado,
barracas de jogos e doces se misturam com vendedores de velas e terços. Gente
de toda a parte movimenta o pequeno povoado.

Saindo da Igreja o visitante pode
vislumbrar o curioso
casario
colonial a serpentear pela rua principal. Casas e casarões de dois andares,
com telhados e paredes tortas, disputando o horizonte com as montanhas verde-escuras,
emprestam um ar místico ao local. Em algumas casas encontram-se raridades
do século XVIII: oratórios públicos inseridos nas construções. Há pelo menos
três destes oratórios na rua principal. Até mesmo estes pequenos oratórios
estão envoltos em mistério. Diz-se por lá que eles foram confeccionados para
espantar o grande número de assombrações que visitavam as noites de São Bartolomeu!
O maior tesouro cultural de São Bartolomeu parece
ser a cultura secular dos doces. Produz-se na cidade doces de todos os tipos:
cidras, doces de leite, cocadas, marmeladas etc. Mas o mais famoso doce de
São Bartolomeu é sua goiabada cascão, procurada por
todo mundo. Comida com queijo caseiro a goiabada é a sobremesa mais famosa
de Minas Gerais. Em São Bartolomeu estes doces são feitos em quase todas as
casas, em grandes tachos de cobre, com antigas receitas passadas de geração
em geração. Relatos há de viajantes estrangeiros que experimentaram os doces
de São Bartolomeu no começo do século XIX. E adoraram! Tudo isto faz de São
Bartolomeu uma relíquia da cultura mineira e brasileira.
São Bartolomeu fica a 18Km de Cachoeira do Campo.
Dores
da Bela Vista
Trino (Dom Bosco)
Santa Quitéria da Boa Vista (Boa Vista)

Na lista destes pitorescos povoados
abandonados que rodeiam Cachoeira está Dores da Bela Vista. O amante de passeios
não pode deixar de dar uma passadinha por lá. De Cachoeira segue-se cerca
de 10 km até o Trino (Estação Dom Bosco), do Trino se desce mais 10 km, rumo
a Ouro Branco, pela velha estrada de terra. De um alto ver-se-á ao fundo a
melancólica Capela de Nossa Senhora das Dores da Bela Vista. Ao redor do expectador
a realmente 'bela vista' de vales e montanhas, campos e capoeiras. Antigamente
Bela Vista teve uma rua com casas na ladeira da capela,
mas
hoje só há ruínas. Casa mesmo só uma aqui, outra acolá. Garimpeiros habitam
a maioria delas em busca do cobiçado topázio imperial. Ao lado da capelinha
o pequeno e antigo cemitério de pedra guarda os moradores de outro tempo.
No século XIX Bela Vista estava à margem de um movimentado caminho, e a Capela
das Dores foi uma das muitas que se ergueram nestes caminhos de antanho. No
alto da serra que rodeia a capela há uma grande e velha cruz de ferro marcando
o lugar da morte trágica de um homem por relâmpago. Dizem que é uma cruz mal
assombrada. O certo é que tanto ela, a capelinha e as ruínas causam profunda
impressão ao visitante, pequenas frente à paisagem montanhosa, testemunhas
de outros tempos mais prósperos.

A estrada de ferro central do Brasil teve grande
importância em nossa região até há uns 20 anos atrás. Mas, como todo mundo
sabe, Cachoeira não é cortada por ela. Qual foi a solução encontrada pelos
nossos antepassados para usufruir deste meio de transporte?
Construir uma estação no antigo Trino, distante uns 7 Km ao sul de Cachoeira.
A estação construída com a ajuda dos salesianos (daí o outro nome do Trino,
mais difundido, Dom Bosco ou estação Dom Bosco), trouxe uma onda de desenvolvimento
súbita ao pequeno Trino; foram construídos diversos armazéns e até algumas
construções imponentes.
Uma
visita ao Trino é voltar aos tempos áureos da estrada de ferro. O visitante
seguirá pela estrada Dom Bosco. A cada curva aparecerão no horizonte as altas
montanhas de Rodrigo Silva e o Alto da Figueira, o ponto mais alto da Central
do Brasil no país. Hoje o Trino é quase um lugar abandonado; a estação ruiu,
a capelinha está perdida nos campos. Mas pelo que resta ainda é possível perceber
outros tempos mais prósperos, quando pessoas de todas as partes transitavam
nas suas ruas, vindas com o trem.
Santa Quitéria da Boa Vista (Boa Vista)

Para quem gosta de fazer caminhadas uma boa dica de passeio é o histórico povoado de Santa Quitéria do Alto da Boa Vista.
A caminhada é toda feita pela Estrada
de Ferro Central do Brasil. Pela ferrovia abandonada o trajeto desde Rodrigo
Silva é de aproximadamente 3 km, no sentido de Ouro Preto. O zigue-zague da
linha descortinará ao trilheiro um mundo de montanhas e vales verdejantes.
Destacando-se contra o azul do céu está o Alto da
Varanda, montanha cujo curioso nome se desconhece a origem. De um lado da
imponente montanha está Rodrigo Silva, ao sopé. Do outro se esconde a velha
Boa Vista. O visitante verá, depois de meia hora de caminhada, as silhuetas
das casinhas. Abandona-se então a estrada de ferro e segue-se à esquerda,
por um caminho de terra. No alto da colina se destaca a capelinha de Santa
Quitéria, alegadamente uma das mais antigas de Minas. A maioria das casas
está abandonada, a ruir.
Na verdade Boa Vista é quase um destes povoados fantasmas. O silêncio da paisagem não revela o passado do lugar. Somente as ruínas aqui e acolá deixam entrever os tempos em que Boa Vista era um próspero povoado. As pequenas cruzes do seu cemitério sepultam os antigos moradores e com eles a vida de outrora.
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