Filha
do lendário músico da Banda de Baixo Randolfo Lemos e de Honorina Lemos, Maria
Dolores de Lemos nasceu em Cachoeira do Campo a 7 de julho de 1908, sendo
pouco depois batizada pelo Pe. Afonso. Por ter trabalhado no correio, profissão
a que dedicou 46 anos da sua vida, a "Lilia do Randolfo", como era conhecida
na juventude passou a ser a D."Lilia do Correio", a senhora carismática que
a todos recebe com um sorriso no rosto. Aliás, como é típico do interior,
não raro o nome ou apelido, acrescido pelo nome dos pais, do cônjuge, da profissão,
ou do local em que mora, passa a ser o segundo nome da pessoa, mais conhecido
que o nome verdadeiro. Assim temos a D. Anita "da Ladeira", o "Manel da Loja",
o "Mané da Eva" etc. Com 25 anos D. Lilia casou-se com João Batista Costa
cuja obra sobre Cachoeira e seus romances históricos estão entre os mais importantes
do gênero.
D. Lilia passou a juventude no primeiro quarto deste século, convivendo com personagens que ocupam hoje lugar de destaque na história de Cachoeira, o que aguça a curiosidade de qualquer amante da história. "Meu pai era muito rigoroso" diz "não nos deixava ir aos bailes, e nem gostava de que namorássemos, mas isso impunha respeito aos outros, e mesmo tendo ficado cego, ainda regeu a Banda de Baixo mais trinta anos. Quando ele morreu muita gente achou que a banda ia acabar, mas ela ainda ta lá".
O Cel. Ramos era o único farmacêutico de Cachoeira e fazia-se de médico quando alguém precisava, o que não era raro: "não tinha jeito de ir a um hospital, era muito difícil. Para ir a Ouro Preto, ou se ia a cavalo passando pelo Tombadouro em direção à Pedra de Amolar ou ia a pé ou a cavalo até a estação D.Bosco pegar trem. Então se adoecesse lá se ia procurar o Seu Joaquim [primeiro nome do Cel. Ramos]. Ele era um velho gordo, barbudo, sua casa era a maior de Cachoeira, ocupava um lado todo da pracinha lá embaixo [hoje, praça Cel. Ramos] era enorme mesmo, tinha dois andares, é uma pena que ela não exista mais..." lamenta.
"Agora, o Pe. Afonso é de quem mais falavam, eu não lembro dele, mas minha mãe falava muito do 'vigário Afonso'. Ele morava ali na ladeira perto da matriz [onde funciona a padaria Tutti Pane] e era uma alma muito boa." Sua vida era cheia de anedotas: "tinha uns meninos que sempre iam vender topázios sem valor para ele, só pra ganhar uns trocados do velho padre. Quando saia da casa dele com os 'réis' no bolso era só esperar: o vigário atirava as pedras sem valor pela janela e mais que depressa os meninos as recolhiam. E se fosse de manhã, podia contar que de tarde tinham vendido as mesmas pedras para o vigário" e quem caia no conto do vigário era ele! "Pe. Afonso era muito simples, no fim da vida só possuía mesmo uma batina, já muito surrada e desgastada nas bordas e foi com ela que ele morreu [esta batina ainda existe na paróquia]. Quando ele morreu muita gente chorou, todo mundo gostava dele..."
Como se divertiam os jovens naquela época? "De vez em quando tinha baile, ao som das bandas e se dançava muito respeitosamente. Namoro não podia andar nem de mão dada! E tinha também muitas serestas ao som da viola, flauta, violino e pandeiro. Fora dia de baile ninguém ficava até muito tarde na rua por que não tinha iluminação... o bom mesmo era ficar conversando à tardinha nos alpendres ou nos passeios, quando ocorriam alguns namoricos, mas namoro só de ver, era muito diferente. Mas o melhor era dia de festa. A maior delas era a Semana Santa, vinha gente de todo lado e a rua ficava cheia, com uma porção de barraquinhas. Tinha também a festa de N. Sra. de Nazaré em setembro, o mês de Maria, o Divino e o Rosário, e as Consoadas de Natal, quando se trocavam doces. E tinha o carnaval também. Tinha um carnaval na parte alta tocado pela Banda de Cima e outro em baixo tocado pela Banda de Baixo".
D.Lilia acha que Cachoeira melhorou em muitas coisas: "hoje tem luz e calçamento. Rua calçada em Cachoeira era só a ladeira e uns pedaços da rua de baixo [o calçamento original de pedra foi infelizmente retirado na década de 80] D. Lilia se lamenta contudo que as pessoas hoje perderam muito do modo de vida simples daquele tempo. "Era bom, tenho saudades daquelas pessoas e da Cachoeira que só existem agora no meu pensamento".
Quem
que ao subir a Rua Pe.Afonso de Lemos - a nossa ladeira - não parou
para prosear com a D. Anita? Seu nome de batismo é Anita Magalhães Diniz,
mas o povo a batizou novamente de D. Anita da "Ladeira", a senhora sorridente
que acostumamos a ver debruçada na janela daquela casa antiga da ladeira,
uma das primeiras de Cachoeira. D.Anita nasceu em Cachoeira do Campo a 30
de novembro de 1919, filha de Joaquim da Conceição Magalhães e Filomena Maria
Nascimento. "Meu pai era da Banda de Baixo, mas minha mãe era da Banda de
Cima, era muito engraçado", relata rindo o caso curioso. D. Anita casou-se
com Cristóvão Diniz da Silva com quem teve 3 filhos naturais e com quem criou
mais um, adotivo. A Cachoeira do seu tempo era muito diferente da de hoje.
"Tinha poucas ruas com calçamento, mas as casas eram muito bonitas. Tinha vários casarões também" relembra D.Anita. "O mais bonito era um que ficava na Praça do Bom Despacho, lá embaixo, tinha dois andares e um varandão enorme, cheio de vidraças coloridas". O sistema de água em Cachoeira também era curioso, "água encanada era luxo. Tinha várias torneiras, mas na rua. Chafarizes também tinha vários. Tinha um aqui na ladeira na frente da minha casa, tinha um lá embaixo [Praça Dr. Benedito Xavier], outro no Tombadouro. A água que descia do tombadouro vinha num 'sangrador' e descia pelo boqueirão até nas Mercês. Era comum ver mulheres e meninos carregando seus baldes na rua".
Tinha algum lugar de trabalho em Cachoeira? "Eu trabalhei muito tempo na fábrica de vinho que funcionava aqui do lado [atual residência do Sr. Nylton Gomes Batista]. O dono, seu Tonico de Brito, era cego, mas fiscalizava assim mesmo todo trabalho. Punha os rótulos na garrafas só pelo tato!... Muita gente mechia mesmo era com plantação. Eu me lembro dos vários moinhos de pedra que existiam lá pra baixo da Ponte do Palácio. Quando eu era menina gostava de ficar vendo eles funcionarem, fazendo fubá. Todo mundo que plantava milho levava ele pra lá"[as ruínas destes moinhos existem até hoje, desde a Ponte do Palácio até as proximidades do Retiro das Rosas].
E como se divertiam as pessoas? "Ah, tinha uns bailes muito bonitos, tocados por orquestras das bandas. Lá o rapaz convidava uma moça pra dançar e dançava-se com muito respeito". Para diversão havia as festas também. "Tinha a festa do Congado, do Rosário, do Divino, tinha muitas festas". Ainda sobre as festas religiosas D.Anita se recorda da grandiosidade que era a Semana Santa. "Ih, na Semana Santa vinha uma multidão. O dia mais bonito era a Sexta-Feira da Paixão. O descendimento era feito no altar-mor e não na Praça. Quando o Senhor dos Passos entrava na Matriz o escondíamos na casa que existia dentro do cemitério. E quando puxávamos a cortina que cobria o altar-mor o povo achava que o Senhor Crucificado era o mesmo Senhor dos Passos. O povo tinha muita fé. Era muito emocionante [D. Anita foi zeladora da Matriz durante muitos anos e ajudava a organizar estas festividades].
D.Anita é repositório de história viva, exemplo marcante de união entre patrimônio cultural e humano. Dinâmica desde sempre D.Anita foi uma das fundadoras do Grupo da Terceira Idade de Cachoeira. Seu dinamismo acompanha sua memória extraordinária. "Agente vai ter que ficar conversando por muito mais tempo. Se eu for falar tudo que eu lembro de Cachoeira dá pra escrever muitos livros! Muita casa bonita teve em Cachoeira, muita festa, muita gente interessante e agora tá tudo guardado aqui na cachola!"

A venda é uma relíquia de Cachoeira, com aproximadamente 160 anos de história. Quase tudo lá funciona igualzinho como era antes. Se tiver um pouquinho de imaginação poderá ver os tropeiros aos montes apeando na frente da venda com suas mercadorias, transportadas por centenas de léguas no lombo dos cavalos. "Os tropeiros de Cachoeira rodavam por todo lado. Iam até o Rio e traziam muitas mercadorias e sal, muito sal. Lá deixavam nossos produtos: selas, cintos, cabrestos, correias" diz "seu" Silvio, dono do histórico estabelecimento. Ele lembra com maestria o nome de alguns destes tropeiros: "Benedito Manoel Ferreira, Juventino Ferreira, Antônio Valério... ih, tinha uma porção aqui".
Silvio Ferreira Xavier nasceu em
Cachoeira do Campo em 30 de julho de 1917, filho de Joaquim Ferreira Xavier
- o seu Quinca - e Minervina Ferreira Xavier. "Meu pai fez o primeiro sistema
público de água encanada de Cachoeira quando ele era vereador. Os tubos de
ferro passavam aqui na frente [Rua Sete de Setembro] e iam pros
chafarizes."
Seu Silvio casou-se aos 25 anos com Maria de Lourdes Barbosa Xavier com quem
teve 14 filhos, 3 dos quais faleceram ainda jovens. "Eu morava perto da casa
dela. Aí nós começamos a namorar de longe. Um dia eu criei coragem e pedi
ao pai dela a mão de sua filha. Ele era bonzinho e deixou." Aliás Cachoeira
tinha seus pontos de encontro e lazer: "Era domingo depois da missa, todo
mundo ficava passeando no adro e na praça. Os rapazes olhavam as moças de
longe e depois, se elas correspondiam, falávamos que estávamos namorando!".
O trabalho começava cedo. "Meu primeiro serviço era correr Cachoeira toda a pé para buscar ovos pra João Fiúza, que os despachava por trem pro Rio de Janeiro!" Aos poucos a modernidade começou a chegar. "O primeiro caminhão de Cachoeira foi nosso. Quando ele apontava lá no começo da ladeira [perto da Padaria D.Bosco] era uma festa! A meninada saia da escola e vinha correndo atrás dele. Era uma alegria só". Depois veio a eletricidade: "Aí compramos o primeiro rádio de Cachoeira [que ainda existe]. Era o maior alvoroço aqui na venda de tardinha, todo mundo escutando o programa do Compadre Belarmino [antigo programa da Rádio Inconfidência]. Ríamos bastante."
Alguns casos hoje parecem estranhos, pra não dizer cômicos: "Um dia uma vaca derrubou meu irmão e pisoteou ele todo, ele ficou muito machucado, ruim mesmo. A saída foi colocar ele numa padiola e levá-lo desse jeito até Ouro Preto passando aqui por cima [passando pelo Tombadouro e por São Bartolomeu!]. Foram correndo uns trinta homens! Quando os da frente cansavam, se revezavam. E assim foi até chegar a Ouro Preto. E meu irmão, mesmo sacolejando no trajeto, ficou são e salvo!" Outro caso interessante: "Tinha um freguês que não podia descuidar dele, sempre que podia enfiava a mão na gaveta e tirava dinheiro. Um dia resolvi lhe dar um susto: Armei uma ratoeira na gaveta! Não deu outra. Traaa! Peguei o gatuno!" Seu Silvio completa, "mas ele era exceção, o povo de Cachoeira sempre foi muito honesto". Sabe como se conservavam as bebidas geladas? "Punha as garrafas dentro de um caixote com serragem e sal, e elas ficavam fresquinhas, mas geladas mesmo não. Era nossa geladeira! E assim tomávamos nossa cerveja, mesmo um pouco salgada" brinca seu Silvio.
"Meu pai morreu quando eu era muito
jovem.
A
venda, por isso, passou a se chamar Casa Viúva Xavier, homenagem a minha mãe
que batalhou pra nos criar". A venda histórica "seu" Silvio herdou do pai,
que por sua vez irá passá-la ao filho e este ao neto. Quatro gerações contando
a história de Cachoeira! Quem vier passear na nossa terra não pode deixar
de conhecer a venda do "seu" Silvio e nem deixar de prosear com seu simpático
dono.
A Casa Viúva Xavier fica à Rua Sete
de Setembro, 25, centro, Cachoeira do Campo - MG. CEP.: 35.410-000.
O telefone de lá é (0xx31)3553-1360.
Tia Laura de Assis , Tia Maria de Assis
Quando
chegamos à casa para fazermos a entrevista, fomos recebidos com um sorriso
no rosto pela D.Maria. Depois chegou D.Laura, saudosa catequista de muitos
anos atrás. Olhou-nos longamente, e, sobre seu antigo aluno de catecismo,
disse: "Quantos anos se passaram? Ah, eu lembro do Alex novo, eu não queria
que ele crescesse!" Mas o tempo é inexpugnável, passa e muda tudo, só não
muda mesmo as lembranças que todos nós temos da querida catequista. "Dei catecismo
muitos anos, muitos anos mesmo, no Colégio, no Oratório. Eu dava sorte, pegava
umas turmas boas, alegres, e lembro de você, Alex, lembro que gostava de fazer
as leituras" e dirigindo à sua irmã Maria, demonstra o prodígio da sua memória
"Era bom ver ele ler".
D. Laura e D. Maria nasceram e sempre moraram naquela antiga e graciosa casa do Açude. Eram ao todo 12 irmãos. As duas irmãs sempre estiveram muito ligadas. D. Laura de Assis Costa nasceu em 24 de dezembro de 1913, "nasci em dia de festa, nasci no dia das Consoadas de Natal" [as Consoadas eram uma tradição de Cachoeira; às vésperas de natal as famílias trocavam doces e os festejos mesmo ficavam, por esta conta, concentrados no dia 24]. D. Maria de Assis Costa nasceu no dia 08 de fevereiro de 1915, "mas só fui registrada mesmo alguns meses depois, naquela época não dávamos muita importância para isso". Eram filhas de Francisco de Assis Costa e Joaquina Gonçalves Costa. "Meu pai era da Banda de Baixo e , claro, nós também", relembra D. Maria, "era um tempo bom, era tudo difícil, mas era bom. Tinha festa bonita, carnaval na parte de baixo e na parte de cima, tinha o coral que nós cantamos muitos anos; tinha até a Missa Vermelha" [a Missa Vermelha era uma celebração especial, com cantorias em latim, tipicamente acompanhada pela Banda de Baixo. A última Missa Vermelha foi celebrada em Cachoeira há uns 20 anos]. "A missa era chamada de vermelha porque as letras da partitura eram vermelhas" esclarece D. Maria.
"Eu trabalhei no Colégio das Irmãs. Fui alfaiate, calceira [que faz calças], enfermeira", desta última profissão D. Laura relembra, "aprendi a ser enfermeira com João Bastos e Dr. Benedito. Todo mundo gostava, tinha mão leve. Sentia bem de enfiar uma agulha" brinca D. Laura. Era este um serviço pesado, mas D . Laura nunca cobrou um só tostão! "De vez em quando davam umas gorjetas, coisa pouca". D. Laura e D. Maria participaram na juventude de muitos teatros no Colégio das Irmãs, "me lembro da última peça, se chamava 'Justiça Divina'", e D. Laura nos conta o enredo do drama.
Tinha uma porção de casos engraçados. "Uma vez" diz D. Maria "meu irmão foi fazer serenata para sua namorada. Só que já foi meio tonto, com umas na cabeça. Chegou na casa da amada, pegou o violão e começou a cantar. Como tava um pouco zonzo encostou na porta e... bum! Caiu dentro da casa com violão e tudo, por que a porta tava só cerrada! Foi um susto só!" [este tipo de serenata ou seresta era muito comum em Cachoeira].
"Era uma vida difícil. Se queríamos ir a BH tínhamos que ir a pé até Hargreaves ou Itabirito! Mas não reclamávamos. Era um tempo bom" conclui D. Maria. "Eu tenho saudade dos meus alunos, da carinha deles, das risadas. Ainda lembro muito deles aqui na minha cabeça" diz D. Laura. Na nossa cabeça de pequenos catequizandos ela era chamada docemente de Tia Laura e sua irmã Tia Maria, e assim lembraremos sempre delas; da Tia Maria e da Tia Laura do Catecismo...
Primeiro
eram os boticários, depois vieram os fármacos. O primeiro farmacêutico de
Cachoeira foi o Cel. Ramos, por esta época o que ele tinha nem era bem farmácia,
era uma espécie de botica, bem diferente das farmácias atuais. Só depois é
que apareceu por aqui, vindo do interior de São Paulo, João Bastos Filho,
trazendo consigo a primeira farmácia de Cachoeira propriamente dita. João
Bastos casou-se com a ouropretana Esmeralda Dias Bastos, com quem teve três
filhos. Um deles foi Arnaldo Dias Bastos, o "Sô" Arnaldo da Farmácia, nascido
em 5 de dezembro de 1923. "A Farmácia era do meu pai. Um dia ele adoeceu e
vendeu a farmácia para José Coelho Pinto. Fui então para BH, trabalhar e estudar.
Quando voltei para cá meu pai comprou novamente a farmácia e alguns anos depois
a antiga Farmácia São Geraldo virou a Farmácia Bastos." Mas naquele tempo
as farmácias eram bem diferentes! "Ih, era tudo muito diferente. Muitas das
vezes nós tínhamos que fabricar o remédio. Tinha também um monte de remédio
que não existe mais. Mas alguns ainda são vendidos como o Biotônico Fontoura
e o Capivarol."
Quem de por aqui não foi tratado alguma vez pelo "Sô" Arnaldo? "Éramos uma espécie de médico do povo, numa época em que médicos eram escassos." "Sô" Arnaldo atendia toda região. Atendia pessoas com os mais diversos casos, "era cansativo, mas era bom, ensinei muita coisa para o povo, aprendi muita coisa também". A farmácia mudou de lugar algumas vezes, "a farmácia já foi lá em cima [na Praça da Matriz], só depois passou aqui pra baixo." "Sô" Arnaldo também foi músico da Banda de Baixo durante muitos anos, tocava flautim. "O melhor é quando íamos tocar na Festa de São Bartolomeu. Íamos na maior parte das vezes a pé [o que era comum], carregando os instrumentos. Ficávamos lá uns quatro dias. A festa não tinha luz, não tinha nada, mas era boa". Perguntado por que escolheu tocar na Banda de Baixo "Sô" Arnaldo diz que não sabe, "é como torcer pra time, você não sabe por quê". Aliás
"Sô" Arnaldo também foi futebolista do Cruzeiro do Sul, primeiro time de Cachoeira, "eu era meio campo e era bom jogador!"
"Sô" Arnaldo e sua esposa recordam
com saudade quando se conheceram. Dona Lia lembra:
"Ele tinha uma farmácia em Amarantina [terra natal dela], mas eu não
o conhecia, conhecia seu pai, mas ele não. Um dia sonhei com ele. Ele tava
tão bonito no sonho que no outro dia fui à farmácia comprar uma acetona (que
eu nem precisava) só pra vê-lo, e ele era direitinho como no sonho." O sonho
deu certo pois "Sô" Arnaldo e Dona Lia (ou Maria das Mercês Araújo Bastos)
são casados há mais de 55 anos e tiveram vários filhos. "O velho João Bastos
é quem fazia os partos" relembra "Sô" Arnaldo, "papai deve ter colocado uns
3.000 meninos neste mundo!".
Na década de 50 "Sô" Arnaldo foi vereador. "Ah, mas era bem diferente do que hoje, vereador não recebia dinheiro para trabalhar". "Sô" Arnaldo foi vereador pelo PSD, o mesmo partido de Juscelino Kubitschek, e como não poderia deixar de ser conheceu o famoso presidente JK nas suas visitas a Cachoeira "Ele era uma pessoa muito simples e boa. Adorava jabuticaba. Adorava as bandas [JK foi músico em Diamantina, sua terra] Gostava mesmo de Cachoeira. Deu os bancos da matriz [os mesmos que estão lá até hoje], conheceu muita gente e fez aqui muitas amizades."
"Cachoeira mudou muito, mas ainda continua sendo Cachoeira, a farmácia continua, tocada pelos meus filhos. Tudo é diferente, mas minha cabeça ainda é a mesma". E todos nós vamos continuar sempre lembrando do "Sô" Arnaldo e sua farmácia.
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