Nossa
Senhora de Nazaré
Semana Santa
Nossa Senhora do Rosário e do Divino
Festa de Nossa Senhora de Nazaré

A
padroeira de Cachoeira do Campo, Nossa Senhora de Nazaré, é celebrada no dia
08 de Setembro, sendo este dia feriado local e dia dos cachoeirenses festejarem.
Começando com a novena, os festejos terminam com uma grande procissão, onde
a imponente imagem de Nossa Senhora de Nazaré, percorre as principais ruas
de Cachoeira, geralmente acompanhada dos padroeiros das capelas filiadas à
paróquia e com a participação das centenárias corporações musicais cachoeirenses.
É a mais antiga festividade de Cachoeira, sendo já celebrada no início de
século XVIII.
Cachoeira
do Campo foi uma das primeiras localidades mineiras a realizar os rituais
da Semana Santa. As cerimônias começavam mesmo antes da semana maior, com
o Setenário das Dores e a Via-Sacra, onde velhas partituras deixavam os baús,
paramentos antigos eram preparados para as cerimônias, as bandas de música
ensaiavam suas marchas para acompanhar as solenes procissões, os corais e
orquestras repassavam seus motetos e cânticos piedosos do ritual bilingüe,
além das figuras bíblicas representadas por moradores da cidade, dos tapetes
de serragem preparados para a procissão da ressurreição que transformavam
e embelezavam as ruas históricas de Cachoeira.
As
imagens paralitúrgicas eram preparadas em seus
andores para as procissões que tomavam suas ruas com a marcante presença da
música setecentista, o latim, o incenso, os motetos e muita fé. A atual imagem
do Senhor dos Passos foi adquirida pelo benfeitor cachoeirense, Padre Afonso
de Lemos, e chegou em Cachoeira do Campo em 04 de abril de 1887, substituindo
uma mais antiga e que hoje se encontra na Capela do Senhor dos Passos
(hoje
sob a invocação de Santa Rita). A Semana Santa atraia inúmeras pessoas de
outras localidades, além dos cachoeirenses ausentes, que aproveitavam a data
para rever seus parentes e amigos.

Festa de Nossa Senhora do Rosário e do Divino

Considerada
a festa mais popular em honra a Nossa Senhora, esta festividade acontecia
no mês de outubro, com as características próprias das festas que ainda podemos
acompanhar em algumas localidades, como Casa Branca (Glaura). Conforme a tradição
local as
festividades iniciavam-se com a novena, fogos de artifício, alvorada, a presença
do Imperador do Divino, Reisado, congados e ainda costumava-se realizar as
Cavalhadas, onde os cavaleiros também acompanhavam a procissão. A Festa de
Nossa Senhora do Rosário é exemplo típico de tradições que infelizmente desapareceram.

Festa
da Jabuticaba
Festa do Cavalo
Em
finais de outubro e princípios de novembro elas tomam conta da paisagem cachoeirense.
Tem sido assim desde os períodos coloniais. O solo de Cachoeira está povoado
por milhares das belas árvores, muitas delas seculares, com vários metros
de altura. Além da sombra fresca e do odor agradável das suas folhas, por
esta época seus troncos e galhos se enchem da frutinha preta e ficam completamente
carregados até nas grimpas. A jabuticaba em Cachoeira é quase uma febre -
Cachoeira é um dos maiores produtores da fruta no Brasil! Os nossos famosos
quintais
se
enchem de gente à procura das deliciosas frutas. Gente da região e de toda
parte. Chupam jabuticaba à vontade, compram já apanhadas ou - o que é melhor
- escolhem as roupas mais surradas e sobem nos pés, onde se banqueteiam. Diz
um velho ditado que "jabuticaba boa é chupada no pé". O espetáculo das jabuticabas
começa algum tempo antes com a substituição das folhas e a floração, quando
se exala um odor adocicado característico que atrai as abelhas, responsáveis
pela
polinização. As árvores ficam mais parecendo, nesta época, árvores de natal
cobertas de algodão! Depois ficam com os galhos todos verdinhos, cobertos
com as frutinhas verdes. Só depois ficam todas negras, mas só ficam boas mesmo
para chupar quando a casca afina.
Em
1992, percebendo a importância cultural da jabuticaba em Cachoeira, o Lions
Clube de Cachoeira do Campo instituiu a Festa da Jabuticaba, importante festividade
da região, atraindo milhares de pessoas a cada temporada. Todos os anos ela
ocorre em fins de outubro e início de novembro. O visitante, além da jabuticaba,
poderá se deliciar com os derivados da frutinha: geléias, vinhos, licores,
bolos etc.

Venha conferir o espetáculo da jabuticaba em Cachoeira, é imperdível!

Cachoeira
do Campo possui uma ligação muito profunda com os cavalos. No século XVIII
habitaram aqui várias centenas de cavalos no Quartel da Cavalaria e no Palácio.
O próprio Tiradentes era Alferes da Cavalaria. Os cavalos cortavam aos milhares
todos os dias as poeirentas estradas das Minas. Em 1819 D.João VI, ciente
da importância do empreendimento, criou em Cachoeira a famosa Coudelaria Real,
onde foram instalados eqüinos vindos de várias partes do mundo. Alguns dos
primeiros cavalos foram trazidos com os próprios integrantes da Família Real
quando fugiram de Portugal em 1808, temerosos com o avanço francês sob o comando
de Napoleão Bonaparte. Aproveitando-se, então, as instalações do Quartel da
Cavalaria os Cavalos foram trazidos para Cachoeira. Após anos de mistura genética
e cruzamentos bem sucedidos os cavalos da Coudelaria Real se tornaram cerne
de algumas famosas raças de cavalos brasileiros.

Para não deixar morrer esta rica herança cultural a Associação dos Cavaleiros Inconfidentes de Cachoeira do Campo criou em 1995 a Festa do Cavalo. Nesta festa há espaços para exposição de eqüinos, leilões, concursos de marcha, shows, rodeios, brincadeiras etc.
É uma festa imperdível, que atrai amantes de cavalos ou simplesmente curiosos pela cultura cachoeirense.
Comemorações 20 de abril

Há mais de cinqüenta anos se realizam as festividades oficiais da Inconfidência Mineira em Ouro Preto. Nesta ocasião a capital é simbolicamente transferida para a velha Vila Rica, com toda a pompa e fama possíveis. Antes de chegar a Ouro Preto a Chama da Liberdade vinda de Tiradentes passa por várias cidades, onde comemorações são organizadas. Quando, na Praça Tiradentes, lia-se o nome das cidades percorridas pelos atletas da liberdade nem se citava o nome de Cachoeira. As comitivas passavam silenciosamente pela rodovia que corta Cachoeira. Mal sabiam eles que cruzavam um dos principais palcos da Inconfidência, terra do Palácio do Visconde de Barbacena e do Quartel da Cavalaria. No dia 21 de abril enquanto se comemorava a grande festa, as ruínas do Palácio da Cachoeira, palco da denúncia de Silvério dos Reis, eram relembradas só pelos lagartos, ilustres moradores do lugar. Cachoeira caia mais uma vez no esquecimento.
Para
repensar esta situação, a diretoria da AMIC (Associação Cultural Amigos de
Cachoeira do Campo) entregou às mãos do então governador Itamar Franco, um
ofício que relatava nossa importância histórica e o fato inadmissível de Cachoeira
se manter à parte das comemorações. Para nossa alegria o governador respondeu
o ofício e autorizou as festividades em Cachoeira. No dia 20 de abril de 2001
a Chama da Liberdade chegou pela primeira vez ao solo de Cachoeira. Foi depositada
uma coroa de flores no antigo Palácio (atual Colégio das Irmãs) onde também
foi inaugurada uma placa comemorativa. Dali a Chama da Liberdade rumou para
a Praça Filipe dos Santos, onde foi depositada uma coroa de flores no Cruzeiro
de Pedra em homenagem ao precursor da Inconfidência, Filipe dos Santos. Na
mesma praça houve grande comemoração, pela Inconfidência e pelos 300 anos
de Cachoeira, com grande concorrência do povo. No outro dia pela manhã, ao
partir, a comitiva depositou uma coroa de flores no antigo Quartel da Cavalaria
(atual Colégio Dom Bosco), em lembrança a Tiradentes.

Estava vencido mais este preconceito com a nossa história e virada mais uma página no esquecimento de Cachoeira.
Os
contos que vovó contava
O monstro do pé-de-beijo
O cavaleiro de Vasconcelos
Era uma vez Batalha...
A senhora desgraça
O trem que atravessou a rua
Por Alex Bohrer

Da minha infância o que eu guardo com mais carinho são as histórias que minha avó contava. Na meninice em Rodrigo Silva, terra natal de minha família, ou nos dez anos em que morou conosco em Cachoeira, vovó "Tote" tinha sempre um "causo" pra contar. Efigênia Pereira Fernandes era filha do conhecido José Pereira, português de nascimento que presidiu a Banda Santa Cecília por vários anos, e da Dona "Tiló", mineira da gema, de quem com certeza deve ter herdado muitas das histórias que sabia narrar como ninguém. Nas terríveis noites de tempestade em Rodrigo Silva ou em Cachoeira, quando a luz acabava, a tv ou o rádio cediam sempre lugar para seus contos. À luz trêmula das velas os netos se reuniam em volta dela. As assombrações de suas histórias tomavam formas fantásticas em nossas cabeças de criança. As sombras incertas nas paredes viravam lobisomens, mulas-sem-cabeça, seres fantasmagóricos animados pela penumbra. E assim crescemos animados por este último suspiro da tradição dos contos da vovó. Hoje os entretenimentos virtuais privam os pequenos do contato único com este mundo mágico que minha avó pintava-nos com maestria.
Do seu marido, meu avô, Alberto Fernandes - dos Fernandes de Rodrigo Silva, como gostavam de salientar, talvez diferenciando-os dos de Cachoeira - lembro que era um homem muito alto, um pouco desajeitado, e misterioso, sempre misterioso. Vivia no seu quarto, em meio às suas tranqueiras (que não eram poucas), nunca saia de casa. Lembro-me sempre dele sentado cabisbaixo em uma grande pedra de amolar que ficava no terreiro. Quando chegávamos na sua casa eu corria ao seu quarto para tomar-lhe bença: "Deus abençoa", era a resposta dada com um leve aperto de mão. Na hora do almoço lá vinha ele, se abaixando para não bater a cabeça na porta. Comia sempre numa velha cuia, lembrança dos tempos em que era um conhecido tropeiro a serviço de seus próprios negócios e, antes, a serviço dos de seu pai, Alfredo Fernandes, senhor das terras da famosa Fazenda do Fundão e que foi um dos pioneiros de Rodrigo Silva - que na época nem se chamava Rodrigo Silva, mas sim José Correia (Rodrigo Silva era o nome de um dos ministros de D.Pedro II que acompanhava o Imperador quando este inaugurou a Estação Ferroviária de José Correia em 1 de janeiro de 1888). Meu avô faleceu em 1986 sem que soubéssemos ao certo a sua idade verdadeira. Seu registro foi feito em 1909, mas era comum as crianças das fazendas crescerem sem pisarem num cartório. O registro civil ainda era visto com olhos desconfiados: "coisa da tal da república"... Muitas das histórias de minha avó tinham meu avô como protagonista, sua fama de curandeiro e benzedor o fizeram objeto de muitas lendas e causos até hoje correntes em Rodrigo Silva.
E assim eu fui crescendo. O olhar atencioso de vovó nunca se afastava de nós. Um dia a saudade foi maior e ela quis voltar para Rodrigo Silva, sua terra querida. Os netos já estavam crescidos. Sentiu que sua missão havia terminado. E como a brisa leve que passa pelos campos assim também minha avó passou pela vida: calma, leve, pequena. Até o fim da vida manteve a brandura do seu sorriso alegre e sem dentes, que a tantos cativou. No rosto já lhe vinha a marca dos anos, mas sua memória invejável a remetia em corrida pelos campos de Rodrigo Silva, por entre as flores que só lá nascem, nos tempos em que ouvia também de sua avó e de sua mãe as histórias que embalaram a minha infância.
No dia 6 de novembro de 1998, 6 dias antes de completar 80 anos, uma multidão acompanhou D. "Tote" à sua última morada, o pequeno cemitério localizado no alto da serra, de onde a vista domina a pequena Rodrigo Silva, com suas casinhas, a igreja de S. Antônio, a Estação e a linha de ferro, lá embaixo. Ali, no silêncio do Campo Santo, repousa no mesmo túmulo de seu marido.
Era
um homem baixinho, narigudo, risonho. Seu nome era Antônio, mas o chamavam
só de Nico. Trabalhava na Central do Brasil, fiscalizando a estrada de ferro
nas proximidades de Rodrigo Silva. Ele ia todos os dias verificar a "linha"
desde o 19 até o 22 (a quilometragem dada pelos primeiros ferroviários foi
adotada pelo povo de Rodrigo Silva que batizou com números o nome de vários
lugares. Assim temos a quarta, o 19, o 22, etc).
Ele era, além disso, um homem teimoso. Uma temusura só. De vez em quando cismava de ir verificar os trilhos e os dormentes lá pelos lados do 22, altas horas da noite. Ia sob os protestos da sua mãe, dona Quitéria:
- Não fica andando de noite menino! Essa linha tá cheia de assombração!
Um encolher de ombros era a resposta. Ele ia sim! E de noite! Era um homem de responsabilidades. O trem das dez e meia tinha de passar sem risco. Qualquer imprevisto ia ser culpa dele.
Então, num desses dias de lua cheia, lá foi Nico, cantarolando e assobiando, pro 22. Deixou Rodrigo Silva pra traz e entrou na "linha". Foi brincando de contar os dormentes, para não pensar nas palavras de sua mãe. Passou assim pelo Vasconcelos, com suas casinhas tristes. Viu de lá a grande cruz do Morro da Guerra, banhada pela luz da lua cheia. "Muita gente morreu ali, na guerra" pensou. E mais que depressa fez um Em Nome do Pai e apertou o passo. Era uma noite fria, daquelas que a ventania fica assobiando nos morros. Um assobio assustador. Era quase um uivo. Mais um Em Nome do Pai...
Ali perto tinha um grande pé-de-beijo. Diziam os antigos que ele era amaldiçoado. Mas ninguém sabia explicar por quê. Na verdade era uma bela árvore, mas naquele dia alguma coisa tava errado com ela. Alguma coisa tava balançando seus galhos e tava fazendo um grunhido muito esquisito. "Deve ser algum desocupado me fazendo medo, vou ver o que é". Aproximou-se. Viu uma coisa enorme deitada. Pensou que fosse uma vaca doente. Encostou a mão nela, só para ajudar. O que era levantou a cabeça e...espanto! Subiu-lhe um calafrio no pescoço. Levou a mão na boca e se afastou de costas até tropeçar no trilho. Era um monstro, um monstro horrível. Era um lobisomem!
Os lobisomens de Rodrigo Silva eram
diferentes dos
outros. Não pareciam lobo. Pareciam porco! E este era grande, muito grande.
Esbugalhava uns olhos redondos, cor de brasa. Soltava fumaça nas narinas.
Nico olhou para suas patas e confirmou. Não era porco mesmo. "Era um lobisomo
do outro mundo". As patas destes seres têm um finco em baixo do casco. Por
isso suas pegadas tem um furo no meio. Tentou correr, mas o monstro prendeu
sua camisa com os dentes. E começou-lhe a pisar, levantando poeira e soltando
uns berros horríveis. Nico tentava se defender, mas era impossível. Tampou
os olhos com as mãos e rezou. Aí então houve silêncio. Levantou-se aos poucos.
Não tinha mais nada. O pé-de-beijo estava calmo. Só uma brisa farfalhava suas
flores. Nico saiu correndo. Pernas bambas. Ofegante. Chegou em casa com as
roupas aos trapos.
No outro dia tava todo mundo falando do tal do monstro do pé-de-beijo. Os mais velhos não tinham dúvida. O monstro era um rapaz que há muitos anos morrera apaixonado por uma bela moça que pretendia desposar. O pai dela não permitiu o casório. E desde então ficava ali, por algum encanto do outro mundo, uivando com a lua cheia. Chorava sua amada na forma de um horrível monstro. Sempre no pé-de-beijo. As flores preferidas de sua amada.
Era
uma sexta-feira de quaresma. João fez o que fazia sempre. Saiu da casa da
namorada altas horas da noite. Esfregou as mãos. Esfregou as mãos no nariz.
Cuspiu. Montou seu velho cavalo. Cumprido o ritual, acenou pra namorada e
partiu. Sua namorada morava em Rodrigo Silva. Ele não. João morava no Vasconcelos,
uma paragem distante uns dois quilômetros dali. Seu cavalo já conhecia o caminho
e, se já conhecia, João podia se distrair, pensar pensamentos bobos. Então
lá foi ele pensando pensamentos bobos. Todo mundo ali falava do tal do cavaleiro
misterioso que rondava as estradas na quaresma, mas isso é coisa de bobo:
- Ah, isso é conversa pra boi dormir! Tinha retrucado sua sogra, sim senhor!
- Vê-se lá, cavaleiro! Assombração é coisa de bobo!
É, mas a coragem de João durou até o momento em que ele viu aquele cavalo preto na encruzilhada, na saída do povoado. O cavalo ainda ia lá, mas o cavaleiro... Era um toco de homem, usava uma capa comprida, preta. João parou. O cavaleiro estava no seu caminho. Mas não ousou continuar por ali. Tinha dois caminhos para se chegar em casa: um pela estrada, outro pela linha, a estrada de ferro. Raspou a goela e tomou o outro caminho. Acima da estrada, seguiu pela linha. Acelerou o trote. A ventania das montanhas cortou seu rosto, levando sua coragem.
Da
estrada de ferro era possível ver a estrada de terra lá embaixo. Com muito
medo João olhou. Aquele cavaleiro o estava seguindo lá de baixo. Corria com
seu imponente cavalo negro, cheio de enfeites. A sua capa ondulava com o vento.
Mas seu rosto era mistério. João correu como um louco, o coração na boca.
Para chegar à sua casa tinha de sair da estrada de ferro e atravessar a estrada
de terra mais uma vez. Isto significava que ia dar de cara com o cavaleiro
de novo. Aproximou devagar da encruzilhada. Olhou de um lado e do outro. Nada.
Silêncio. Pôs a mão em concha no ouvido. Nem sinal de galope. Meteu as esporas
no cavalo e atravessou a estrada. Abriu a porteira, já gritando sua mãe. Desceu
de qualquer jeito do cavalo. Suas pernas estavam pesadas de medo. Abriu a
porta. Quando, já dentro de casa, virou-se para fechar a porta ele quase caiu
pra trás. A cabeça negra do cavalo misterioso estava impedindo que ele fechasse
a porta! E depois apareceu o braço do cavaleiro, com uma luva longa, também
negra. João rezou, não ia conseguir fechar a porta. Falou o nome de tantos
santos quanto pôde, de todos que se lembrava, até do esquecido São Pedro de
"Catigerona", lá da capelinha de Rodrigo Silva. E, de repente, fez-se silêncio.
A porta estava livre. Tudo estava calmo. Sua mãe apareceu e fechou a porta,
perguntando o por quê da gritaria.
Conta-se que João dormiu vários dias debaixo da cama, com medo. Nunca mais namorou e nem saiu do Vasconcelos de noite. Depois contaram pra ele que o Cavaleiro de Vasconcelos era a alma penada de um homem que havia morrido por ali há muitos anos, numa guerra. Desde então patrulhava as noites de quaresma, em busca de intrusos na guerra que, para ele, nunca acabou. Até hoje, dizem os mais velhos, quando todo mundo já está dormindo, pode-se ouvir o trotear do seu cavalo a atravessar a rua, indo pro Vasconcelos ocupar seu posto eterno.
O
tempo tinha amanhecido ruim naquele dia. Morros cobertos de neblina. Chuva
fina. Alberto, pontual, 5 horas da matina já de pé. Escorado no fogão a lenha,
tomava o café ralo, deixando a fumaça entrar no nariz. No canto, sentada,
olhinhos negros, esfomeados, esmolando um pedaço de broa do Alberto, está
Batalha. Cachorra bonita era aquela, grande, pêlo amarelo, sem peste. Bonita
e leal. Todos os dias acompanhava Alberto no seu serviço de tapar buracos
nas estradas; poeirentas na seca, barrentas nas chuvas, como agora.
- Vam'bora, Batalha!
Atirou pedaço de broa sobrada, pegou o embornal e partiu. Atrás dele, de estômago forrado, Batalha. Manhã passou sem novidades. Almoço repartido com Batalha, sempre. Tarde miserável, com chuva na cacunda, e lenta. "Êta tempo que não passa". Serviço chato esse de ficar rodando estrada afora. Vez por outra passa um caminhão Ford, lá pros lados da Cerâmica. Mas nestas estradas de terra, deste mundão de Nosso Senhor Santo Antônio de Rodrigo Silva, passa mesmo é cavalo e cavaleiro. Passam, olhando o Alberto e a cachorrinha, e saúdam:
- Bão dia, seu Aliberto. E ocê Batáia?
- Bão dia - era a resposta.Alberto nunca foi homem de muitas palavras.
Ufa! Hora de "imbora". Batalha na frente latindo e rodopiando. Em casa tinha sua caminha quente e o colo de dona Tote, sua dona. Mas, eis que chuvão de vento e raio pegou os dois lá no Alto da Serra. Não dava pra ver nada. Os postes de luz que vinham do Bico-de-Pedra balançavam o madeiro quase podre. E no meio da chuviscada Batalha não arredava o pé de Alberto. Era sua sina, desde que nascera, protegê-lo. A ele, ela era eternamente grata. Sua benzição tinha livrado ela várias vezes de bater biela. "Olha, invem poste descendo". Alberto tava na mira do poste que em vinha caindo, mas não viu, tava de costas. Batalha latiu, rugiu, puxou sua calça, empurrou-lhe, até afastar o gigante desengonçado. O poste caiu pesado, de raspão. Êta poste de luz! Êta poste da vida...
Na hora da janta Tote perguntou ao meu avô, estranhada:
- Uai, Alberto! Cadê Batalha? Lágrima pingando no prato, Alberto respondeu:
- Um poste caiu na Batalha. Batalha salvou minha vida. Morreu em meu lugar...
Minha avó sempre dizia: "Vai Batalha, dorme tranqüila, na sua sepulturinha, no Alto da Serra de Rodrigo Silva".
E era uma vez Batalha, cachorra boa, batalhadora, como nunca, jamais, houve outra no mundo.
Esta
aconteceu lá pros lados do Córrego da Praia, nos fundos de Rodrigo Silva.
Havia lá uma casinha de tijolos, telhas pretas, e uma chaminézinha que de
pouco servia - a fumaça gostava mesmo era de escapulir pelas gretas das telhas,
no meio dos paus da armação velha e sem assoalho. Era uma casinha velha, com
uma velha dentro.
Êta velhinha ranzinza era aquela! Xingava tudo, com tudo que era palavrão. Da sua boca só saia nome feio. Boca que em compensação fazia tempo que não ajustava um creiodeuspadre ou uma avemaria. Entre aqueles dentes esparsos maldizia quase sempre a sua sorte de ser pobre e ter que lavar roupa "prosotro", pra poder viver:
- Vai pros quinto dos inferno, sô! Que disgraça de rouparia! Que disgraça de vida!
E era desgraça pra lá, era desgraça pra cá. Vai que um dia, de manhãzinha, ela falou uma palavra proibida, assim meio de supetão, enraivando com algo, assim e assado:
- Bosta de Desgraça (...) !!!
De todas, esta era a mais agourenta: Desgraça (...) - que eu não sou bobo de preencher o (...), por que é palavra endiabada, de antigas rezas-bravas, que transformam homem em cupim! Cruz-Credo! Dito o treco ruim, levou a bacia à cabeça e preparou-se pra ir lavar roupa na fonte de Sá Rita. Pôs o pé na soleira da porta da cozinha e arrepiou a espinha: Sentada no banco do terreiro, branquela e enrugada, uma velha fumava cachimbo.
-De onde ocê veio? Pra donde vai?
- Eu vim te visitar, venho de longe, muito longe...
- Então vamo achegando - falou num raro surto de hospitalidade. Serviu café da manhã. Almoçaram. Merenda de tarde. Janta. O tempo arrastou conversas improvisadas o dia inteiro. Mas aquela velha esquisita não ia embora mesmo, não desconfiava sô! O sol se pôs. A senhora branquela foi instada:
- Óia, eu vou tê que fecha a casa e a senhora vai tê que imbora, descupa.
- Eu não posso ir embora, Maria. Você me chamou aqui. Eu sou a Desgraça (...) que você chamou!
O corpo da gente até arrupeia! Foram três dias de rezação em volta da casa. Trouxeram um daqueles padres antigos de batina preta e gola alta, daqueles que não se fabricam mais. Benzeu a casa três vezes. A procissão circundou a casa rezando. Lá dentro a Senhora Desgraça fumava calmamente o cachimbo.
- Fora coisa ruim!
E atiraram fogo na casa. Ardeu a noite inteira. As paredes caíram. Tudo desapareceu. Nem sinal da velha maldita. Maria nunca mais falou palavrão, virou beata de Santo Antônio. Nas ruínas da casa nunca mais ergueu-se habitação. E assim tem sido: sem paredes, sem chaminés, sem maledicências, sem desgraças...

Esta história é para os que não duvidam, ou melhor, é para os que duvidam. Aconteceu no tempo em que era preciso fechar as gretas das janelas com cobertor para assombração não passar. Aconteceu em Rodrigo Silva, terra dos tufos de alecrim, dos campos de gabiroba e dos morangos que dão na beira da linha.
Aconteceu naquele tempo com um tal de Benedito Maquinista: Benedito de pai, maquinista de profissão, incrédulo por convicção. Assim como São Tomé, tinha de ver para crer. E des'jeito ele ia indo todos os dias, cavalgando o gigante de ferro, feroz espirrador de fumaça...
Caso de assombração:
- Neca, não existe tal coisa!
Caso de benzição:
- Uai?! E pra que existe o tal do médico dotôr?
Caso de milagre:
- Vixe! Aí é que não existe mesmo, sô!
E todo dia desafiava um e outro que, de carona na Maria-Fumaça, lhe contava um caso de fé. Nem na Igreja de Santo Antônio ele nunca tinha ido quando pernoitava em Rodrigo Silva. Ele não era homem disso, não senhor! Era homem esclarecido, da cidade grande. Se não conhecia o mundo todo, ao menos uns 74% ele devia de ter conhecido da janela da imponente locomotiva. E quando o ziguezaguear da estrada lhe descortinava a pequena Rodrigo Silva ele espetava com o indicador a aba do seu surrado boné de maquinista e dizia:
- Ih, a terra dos que acredita em tudo! Nove vez nove oitenta e um, no tempo dos bobo cê era um!
Vai que daí um tempo o Benedito deu pra duvidar até de Deus! Cruz-credo! Se autoproclamou ateu, e, como tal, passou a debater com os capiaus que lhe pegavam uma carona. Um dia, quase chegando em Rodrigo Silva:
- Num fala isso não seu Benedito, Deus castiga.
- Que castiga que nada. Deus não existe seu bobo!
- Ele tá escutando seu Benedito.
- Que tá nada. Se Deus existe ele que faça essa máquina sair dos trilhos, andar na rua e subir na linha de novo!
Dito e feito! Depois do cemitério a locomotiva descarrilou e foi pro meio da rua. Gritaria geral. Bateu em algum lugar? Que nada, continuou levantando poeira da rua, andando com se tivesse trilho no chão. Subiu a rua principal para espanto de todos. Passou pelo coreto e pela Igreja de Santo Antônio. Subiu a Rua do Cruzeiro. Na encruzilhada pro Vasconcelos subiu nos trilhos de novo, do jeitinho do pedido.
Suando frio, Bené ouviu do capiau:
- Deus existe...
- E é maquinista!
E engoliu em seco.
Outro
vasto patrimônio cultural pertencente a Cachoeira do Campo são as muitas lendas
que ainda persistem em sobreviver na tradição oral. A mais conhecida e difundida
e que merece atenção especial é a chamada "Lenda da Imagem de Nossa Senhora
de Nazaré". Conta-se que, há muitos anos atrás, quando então se construía
a Matriz, uma comitiva vinda do litoral, trazendo uma imagem de N. Sra. de
Nazaré, fez parada para descanso na atual Praça Filipe dos Santos em Cachoeira,
pois ainda teriam que percorrer um longo caminho até um distrito de Caeté,
para onde se destinava a imagem (outra variante da lenda conta que a imagem
seguia para Casa Branca). Quando chegou
a hora de partir, porém, a junta de bois que a conduzia se recusou de toda
forma a seguir em frente. Não havendo explicação natural para o acontecimento
atribuiu-se o fenômeno a um milagre, pois a junta parara bem em frente a uma
igreja com a mesma invocação da imagem que transportava. Assim, a grande imagem
de N. Sra. de Nazaré ficou no lugar da menor e mais antiga, tornando-se tradição
afirmar que não foi Cachoeira quem a escolheu como padroeira e sim, ela própria.
O curioso é que há realmente duas imagens desta invocação pertencentes à paróquia;
uma é a que está no trono do altar-mor, a outra é pequena, muito antiga e
raramente é usada em cultos.
Há ainda muitíssimas lendas guardadas, principalmente pelos moradores mais antigos, a maioria das quais são os famosos "causos de assombração".
Outro
patrimônio que infelizmente vem sendo depredado nos últimos anos é o nosso
folclore. Festas comuns no passado, como o Reinado do Rosário, a Folia de
Reis, o Congado e as Cavalhadas, só existem na memória dos mais velhos e em
poucas fotografias de época. As festividades que conseguiram sobreviver ao
progresso, entre elas
a Festa de N. Sra. de Nazaré e a Semana Santa, já começam também a perder
a característica de atividade tradicional, sendo profundamente modificadas.
É uma grande perda, pois o folclore também faz parte da nossa história e da
nossa cultura. É o que chamamos de patrimônio imaterial.
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