Guerra em Cachoeira: (?) ou (!)
Talvez você já tenha ouvido falar que houve uma guerra em Cachoeira. Mas provavelmente se pergunte: aconteceu mesmo essa guerra? Quando? Por quê? E que tipo de Guerra era?
Vários documentos atestam os atritos entre portugueses e paulistas que culminaram com o episódio conhecido como Guerra dos Emboabas. Vários historiadores também se ocuparam com o tema. Os relatos mais minuciosos parecem ser os de Diogo de Vasconcelos e o do historiador cachoeirense João Baptista Costa. Vasconcelos dedica um capítulo especial à "Batalha da Cachoeira", entrando em interessantes detalhes. João Baptista, porém, narra o episódio dentro do arraial com uma riqueza impressionante de informações, ora em forma de registro histórico, ora em forma romanceada, para o que deve ter se baseado em tradições orais. Mas o que foi essa guerra que tanto despertou a imaginação dos historiadores mineiros?
Alegadamente os bandeirantes paulistas foram os descobridores das primeiras minas de ouro. Natural que as notícias sobre a riqueza repentina advinda da exploração do mineral espalharam-se pelo Brasil e Portugal. Levas de imigrantes principiaram a chegar não só de São Paulo, guiados pelos antigos caminhos bandeirantes, mas de todo o Brasil e Portugal. Estes forasteiros, especialmente os portugueses, não eram vistos com bons olhos pelos paulistas. Estes, como descobridores das minas, julgavam-se usurpados do seu direito de exploração, que queriam, fosse exclusivo. Os paulistas não achavam justo os forasteiros, especialmente portugueses, se beneficiarem com o achado.
O imaginário nacional idealizou a figura dos bandeirantes paulistas como intrépidos homens, bem vestidos, protegidos e armados. Mas isto não passa de idealização. Andavam nossos bandeirantes em geral descalços, com uma espécie de bermuda. Muitas vezes descamisados. Entre as armas o arco e flecha indígena. A língua era uma mistura de tupi com português. E foram estas diferenças, irredutíveis em si, que deram origem aos atritos. Os paulistas começaram a chamar os portugueses de emboabas, palavra indígena que significa "galinha calçuda", uma alusão ao fato, estranho aos paulistas, dos portugueses usarem calças e botas!
Os primeiros atritos tiveram origem no Caeté, envolvendo o poderoso português Manuel Nunes Viana, que logo viria a se tornar o líder emboaba. Tanto paulistas, quanto emboabas, reivindicavam o direito de exploração. Não tardou muito e o conflito deu origem às escaramuças armadas que a historiografia consagrou como Guerra dos Emboabas. Corria o ano de 1708.
Do
Caeté, cada vez mais acuados, os paulistas vieram se refugiar em Cachoeira.
Aqui prepararam-se para a grande batalha, fortificaram o arraial, cavaram
trincheiras (que ainda podem ser vistas em algumas partes). Vindos pelo Amarante,
seguindo o Rio Maracujá, os portugueses enfrentaram os paulistas numa batalha
encarniçada, conhecida como Batalha da Cachoeira. Três dias depois
os Emboabas expulsavam os paulistas do arraial. Consagraram a vitória na Matriz
de Nazaré, sagrando Manuel Nunes como Governador das Minas. Mas essa é uma
outra história...
Cachoeira: A cidade mais bela de Minas?
Você acha Cachoeira do Campo bonita? Não, não responda agora. Você pode ser novo e não se lembrar de outra Cachoeira, uma que existiu até bem poucos anos atrás. Pergunte aos mais velhos, eles lhe falarão de outra Cachoeira, a Cachoeira dos pomares, dos jardins, das ruas bem cuidadas, das belas construções. Se não puder conversar com os mais velhos, se seu tempo não permite, permita-se consultar antigas fotografias e os velhos livros, que podem ser lidos à noite. E no silêncio do seu quarto vá a um outro tempo, quando Cachoeira era a cidade mais bela de Minas!
Aqui, então, talvez você pense:
_ "Lorota de historiador..."
Poderia ser lorota se o historiador não tivesse visto a outra Cachoeira. Mas houve um historiador que estava lá. No final do século XIX o ilustre escritor, historiador e político mineiro Diogo de Vasconcelos começou a escrever o clássico "História de Minas Gerais", até hoje marco e referência no estudo da história mineira. Um dos assuntos que permeia sua obra é a Guerra dos Emboabas, sobre a qual discorre longamente. Um dos capítulos é dedicado à Batalha da Cachoeira, curioso estudo do embate dentro do Arraial. E para realizar seu estudo, é claro, vem para cá Diogo de Vasconcelos, analisar o território e trocar informações com os intelectuais que moravam aqui, que, à época, não eram poucos. Sua primeira impressão de Cachoeira parece que o marcou profundamente. Quando lemos sua descrição romanesca é quase possível imaginá-lo chegando no seu cavalo, lá pelo alto do Tombadouro, à tardinha. À sua frente o espetáculo único do pôr-do-sol em Cachoeira, a vastidão quase intocada dos campos de Minas e, ao fundo, a cidade que desapareceu. Assim escreve Diogo:
"Assentado o arraial da Cachoeira numa colina, como nunca mais bela se descobriu, domina em cheio os arredores. As serras da cordilheira, formando um anfiteatro vastíssimo, deixaram entre campinas e vales, bosques e vergéis, o serrote sobre o qual o povoado se inclina a sol-posto, de modo que não haja mais aprazível habitação nas Minas. Ao norte fica-lhe o Tijuco, ao sul o Ouro Preto, a leste São Bartolomeu e a oeste o Leite."

Relato único? Não, há outros, muitos outros. Relatos de historiadores, escritores, viajantes, memorialistas, jornalistas. Todos celebram uma Cachoeira que está presa na cabeça dos mais velhos e nas velhas fotografias. Mas talvez alguém argumente:
_ "Ora, era preciso destruir para trazer o progresso, senão pararíamos no tempo!"
Mas isso não é verdade. Há vários exemplos de coexistência pacífica entre progresso, patrimônio cultural e meio ambiente. Poderíamos ter um centro histórico conservado hoje. Mas o que vemos? Desleixo, construções sem o menor critério estético, ruas sujas, jardins destruídos, pomares em extinção e um rio morrendo. Tudo isso debaixo dos nossos narizes! Sorte dos mais velhos que conheceram a Cachoeira de Diogo! A Cachoeira "como nunca mais bela se descobriu."
Na
carta denúncia de Joaquim Silvério dos Reis, delatando os Inconfidentes, datada
de 11 de abril de 1789, apôs o governador Visconde de Barbacena, de próprio
punho: "Escrita na Cachoeira e entregue pessoalmente no dia 19 de abril".
Por quê Silvério dos Reis escreveu sua famosa denúncia em Cachoeira do Campo
e o que fazia aqui o governador?
Após o esmagamento da revolta de Filipe dos Santos em 1720 o governador da época, Conde de Assumar, propôs ao Rei a transferência da capital para Cachoeira, por ser lugar mais aprazível e estratégico. Os planos de Assumar objetivavam construir em Cachoeira uma grande fortaleza que protegesse o novo palácio e a Casa da Moeda. A transferência completa nunca foi feita. Entre 1730 e 1733 foi construído em Cachoeira uma Casa de Campo para os governadores e um Quartel da Cavalaria, no local onde hoje está o Colégio das Irmãs. A partir daí os governadores costumavam passar vários dias em Cachoeira com a família, longe da turbulência de Vila Rica.
Em 1779 o governador D. Antônio de Noronha inaugurou o grande Quartel da Cavalaria (hoje Colégio Dom Bosco), alguns quilômetros distantes da Casa de Campo. Em 1782 D. Rodrigo de Meneses transformou a Casa de Campo, agora desmembrada do Quartel, numa construção imponente e espaçosa: o Palácio de Campo dos Governadores. Era uma construção realmente bela. Acorreram para sua construção arquitetos do reino e os melhores artífices da região. Sua grande portada era encimada pelo escudo de Portugal e ladeada por 14 janelas. Possuía vários cômodos, uma capela, um pátio central, jardins, pomares, uma ponte (que ainda existe, próximo à rodovia) e um grande lago artificial. O lago era uma construção enorme, de projeto arrojado. Tratava-se de um tanque com 100 metros de comprimento e 35 de largura, sua profundidade variava de 7 a 10 metros. A água era trazida do açude através de um duto de 1 km de extensão! Os seus incríveis 25 milhões de litros d'água faziam flutuar um delicado scaller, uma embarcação à vela de 7 metros de comprimento, feito só para as senhoras passearem! Hoje o lago está parcialmente soterrado e sua profundidade não alcança mais que 3 metros. As águas já pararam de correr a mais de 150 anos.
Quando o Visconde de Barbacena chegou a Minas em 1788, escolheu Cachoeira como sua residência oficial, despachando daqui grande parte da documentação executiva do período. O Palácio se tornaria célebre então, pois um ano depois viria à tona a Inconfidência Mineira. Nos Autos da Devassa (os autos do processo dos Inconfidentes) várias são as cartas despachadas pelo Visconde e que são datadas de Cachoeira.
Quem passa hoje pela Ponte do Palácio ou caminha por entre as ruínas existentes no Colégio das Irmãs, não pode suspeitar do passado daquele lugar. As irmãs salesianas se estabeleceram no prédio reconstruído do Palácio no princípio do século XX. O famoso Palácio estava, porém, irremediavelmente perdido. Ficara abandonado por quase 100 anos! Modificaram-lhe o todo. As ruínas das suas instalações ainda são vistas espalhadas por vários quilômetros. E os locais onde o tropel de ordenanças eram comuns outrora, transformaram-se agora em abrigos de lagartos e cobras, perdidos no cerrado.

Certo jornalista na década de oitenta, escreveu: "Cachoeira do Campo também está na história. Como Ouro Preto, sede do município, tem o seu herói... foi aqui que o lendário minerador viveu seu drama, pagando caro contra o movimento de rebeldia." Quem é esse nosso herói, que salta aos olhos de tantos visitantes, mas que muitas vezes é nosso ilustre esquecido?
Muito se debateu sobre o verdadeiro papel de herói de Filipe dos Santos. Sua participação no movimento rebelde contra o sistema tributário imposto por Portugal, suas reais intenções e sua origem suscitaram alguns impasses historiográficos. Não nos ateremos aqui a estes aspectos. A nós o que importa é: Qual a verdadeira ligação do homem Filipe dos Santos com Cachoeira? Pouco se escreveu ou se pensou sobre isso. De onde veio Filipe? Certamente não era natural de Cachoeira, nem de nenhuma cidade de Minas (como alguns já quiseram), pois foi executado quarentão em 1720. Nasceu então em alguma época antes das grandes descobertas auríferas, portanto fora das Minas Gerais. Estudos têm demonstrado que ele era português, e não mineiro. Em Minas ele procurava ouro. Mas em Cachoeira? O que ele fazia em Cachoeira naquele fatídico 16 de julho de 1720? Certamente, responderão alguns, agitava o povo contra os impostos que se pretendiam cobrar, como o quinto, onde 20% do ouro encontrado era destinado ao governo. Isto sim, mas por que em Cachoeira? Por que escolheu como seu parlatório o adro da Matriz de Nossa Senhora de Nazaré onde foi preso e ligado pelos séculos afora, e de forma tão profunda, à nossa tradição?
Na sua Monografia da Freguesia da Cachoeira do Campo Pe. Afonso faz uma análise das primeiras famílias que se estabeleceram em Cachoeira e quais eram suas procedências. Em sua maioria elas eram portuguesas. Os primeiros desbravadores vindos do sul devem ter sido expulsos durante a Guerra dos Emboabas, onde se digladiaram portugueses e paulistas. Os paulistas, derrotados, desertaram então da região, abrindo caminho para os portugueses. Assim os construtores da Matriz são quase todos portugueses (ou reinóis, como se dizia). E entre os escritos da Irmandade do Santíssimo, listam-se vários nomes, de várias destas famílias. Entre elas uma nos interessa aqui: a Família Santos. Pe. Afonso conclui que se Filipe não tinha uma residência em Cachoeira, tinha pelo menos vários parentes aqui, não sendo à-toa seu protesto e prisão na Praça da Matriz (hoje Filipe dos Santos).
Destes Santos, de Filipe, saíram personagens ilustres da nossa história, natos cachoeirenses, ou com troncos aqui. Mas este é assunto para um texto futuro.
Pouca
gente sabe, mas durante os séculos XIX e XX Cachoeira do Campo recebeu a visita
de várias pessoas famosas, verdadeiros medalhões da história brasileira. Tal
é o caso dos nossos dois imperadores: D.Pedro I e D.Pedro II. As visitas de
D.Pedro I envolvem um complicado contexto político que merecerá uma abordagem
futura mais detalhada. A visita de seu filho, D.Pedro II, envolve, por sua
vez, aspectos mais curiosos e peculiares, que transformaram este episódio
em um dos fatos mais memoráveis de Cachoeira do Campo, sendo lembrado durante
décadas após pelos mais velhos. Alguns idosos ainda lembram das histórias
que seus pais contavam sobre o velho Imperador de barbas brancas e sorriso
bonachão.
Há basicamente dois relatos sobre a visita de D.Pedro II. Um vem do escritor cachoeirense Lúcio Fernandes Ramos, autor de Cachoeira do Campo - A Filha Pobre do Ouro Preto, baseado em relatos de contemporâneos. O outro vem do próprio imperador, que no seu diário dedicou carinhosamente algumas linhas à Cachoeira. A comitiva imperial vinda de Ouro Preto chegou à Cachoeira no dia 2 de abril de 1881. Quando a carruagem do imperador apontou nas Mercês (na época quem vinha de Ouro Preto chegava à Cachoeira pelo Tombadouro) a multidão que apinhava a praça da matriz disparou um foguetório ensurdecedor que, a pedido da imperatriz D.Teresa Cristina, teve que cessar, pois estava assustando os cavalos. Quando chegou à praça o imperador foi recebido pelo Pe.Afonso, Cel. Ramos, e algumas autoridades locais. A imperatriz subiu logo ao quarto que lhe estava preparado. Antes de almoçar D.Pedro fez questão de conhecer a Matriz, cujos altares o "agradaram muito", como ele escreve.
O banquete fora preparado em um
dos sobrados do
vigário, na praça da matriz (este casarão de dois andares foi infelizmente
demolido, o que constitui uma perda irreparável para nossa memória). Durante
o almoço D.Pedro II sentou-se em uma cadeira imponente que anos antes havia
também sentado seu pai D.Pedro I, fato que lhe foi relatado carinhosamente
por Manoel Murta, companheiro de caçadas de D.Pedro I quando das suas visitas
a Cachoeira. Esta cadeira, importantíssima para a história de Cachoeira, estava
guardada no Colégio D.Bosco e atualmente não sabemos o seu paradeiro, fato
preocupante. Na ocasião o imperador visitou ainda a Coudelaria (antigo Quartel
da Cavalaria, atual Colégio D. Bosco) e o Palácio (atual Colégio das Irmãs),
cujas terras à época pertenciam à Coroa, sendo de "seu usufruto", segundo
suas próprias palavras. Conheceu também a obra educacional do Pe.Afonso, visitando
várias casas onde o vigário lecionava, o que o deixou admirado. Uma destas
casas ainda existe, mas ameaça ruir pelo abandono. Este chalé próximo à igreja
das mercês é uma relíquia cachoeirense que precisa ser conservado, antes que
o futuro lhe reserve o mesmo destino do casarão da praça onde almoçou o imperador!
À tarde o velhinho de barbas brancas despediu-se da multidão, depositou uma vultosa quantia nas mãos de Pe. Afonso para prosseguimento da sua obra educacional e de chapéu à cabeça entrou na carruagem que o levou à Casa Branca. Sua visita à Casa Branca será analisada futuramente. Pelo visto sua doação para a escolinha de Pe. Afonso surtiu efeito, ou não teríamos hoje uma escola com o nome do famoso vigário.
O asteróide que destruiu Cachoeira
Muita
gente já ouviu falar, mas poucas sabem ao certo como aconteceu. Foi lá pros
meados da década de 80. Correu um boato pelas ruas de Cachoeira, correu de
boca-em-boca. Fez muitos darem gargalhadas, mas assustou outros tantos. O
burburinho foi tal que não tardou a imprensa descobrir. Aportaram por aqui
alguns repórteres de plantão, queriam registrar sua matéria num dos casos
mais cômicos da história cachoeirense mais recente: o dia que um asteróide
destruiu Cachoeira. É isso mesmo. Há uns 20 anos atrás correu a estranha notícia
de que um asteróide destruiria Cachoeira: "Um dia - e não vai tardar -
surgirá no céu uma nuvem de fogo. Descerá sobre Cachoeira do Campo, arrasando
tudo, queimando plantações, pastos, devorando casas e animais, e fervendo
a água dos rios. E tudo vai acabar em cinzas, numa devastação sem fim."
Foi a profecia proferida por um pseudo-pastor (por que nem pastor era de verdade)
que por aqui resolveu aplicar seus dotes de profeta. Este suposto pastor fez
algumas reuniões, pregou suas estranhas idéias, e, usando da lábia, angariou
um grupo que lhe creditou confiança. Muita gente aproveita do dom da fala
para desencaminhar ovelhas, e foi o que o aconteceu.
Nuvem de fogo, cometa, meteoro, asteróide. De tudo se cogitou. E tudo foi explorado ironicamente pela imprensa da época. O resultado? Teve pessoas - e algumas famílias inteiras - que fugiram de Cachoeira! Isso mesmo, fugiram de Cachoeira na inocência de acreditar no charlatão. Muitos familiares ficaram desesperados com a fuga de seus entes. Muito constrangimento trouxe a fuga. O falso pastor? Nunca mais, pelo que se sabe, voltou por aqui. O acontecimento serviu a muitas matérias de letras garrafais em jornais de grande circulação da época. A chacota da vez era: Um asteróide destruiu Cachoeira do Campo.
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