Por Alex Bohrer
Na realidade, pouco se fez até hoje no sentido de estudar a história de Cachoeira do Campo mais a fundo. Somente três escritores se destacaram por produzirem obras que tratam diretamente do assunto: Pe. Afonso de Lemos, Lúcio Fernandes Ramos e João Baptista Costa. A Monografia Histórica da Freguesia de Cachoeira do Campo, escrita em 1907 por Pe. Afonso, é a primeira obra de grande relevância, que, baseada nas documentações da Irmandade do Santíssimo Sacramento, influenciou todas pesquisas posteriores neste sentido. O segundo livro aparece na década de 1960 com o nome sugestivo de Cachoeira do Campo - A Filha Pobre do Ouro Preto. Escrito por Lúcio Fernandes Ramos tornou-se a obra mais conhecida e difundida e, apesar de seus vários erros, continua sendo o mais importante retrato da Cachoeira do começo do século XX, época vivida pelo autor. Os trabalhos de João Baptista Costa constituem, contudo, o que há de mais importante, pela seriedade das pesquisas e volume da obra. Seus numerosos manuscritos, tratando em grande parte da história de sua terra natal, constituem o que há de melhor em história e literatura histórica até hoje escritas sobre Cachoeira, com destaque para o seu Memória Histórica I, cujo segundo volume até o momento em que se escreveu isto se achava perdido.
Há ainda várias outras obras que tratam de questões pertinentes a Cachoeira, a maioria das quais livros de memórias. O mais importante destes parece ser o Da Mocidade à Velhice de José de Lemos, escrito em 1986. Outros famosos pesquisadores também se debruçaram sobre nossa história, tratando dela direta ou indiretamente em seus trabalhos. Entre eles cumpre destacar Diogo de Vasconcelos, Ivo Porto de Meneses, Vicente Racioppi e Augusto de Lima Júnior, estes dois últimos intimamente ligados à nossa cultura, tendo residido em Cachoeira por vários anos. Muito da nossa história, na verdade quase tudo, ainda se acha inédito nos volumosos arquivos de famílias em Cachoeira, nos de Ouro Preto, nos arquivos eclesiásticos, no Arquivo Público Mineiro, no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro e nos arquivos de Portugal, entre eles o Arquivo Ultramarino de Lisboa. Estes somente são para exemplificar quão difícil e extenso é este trabalho.
Novas perspectivas se abrem agora, com o aparecimento de documentos inéditos durante nossas pesquisas, como o testamento e inventário de João de Barros, um dos fundadores de Cachoeira, escritos entre 1712 e 1722, documento de suma importância para se entender os primórdios de nossa história, e a Carta Régia de D. João VI, de 1819, sobre a criação da Coudelaria Real da Cachoeira, estabelecimento que ocupou lugar tão sublime na história mineira do século XIX, saindo dela algumas das mais importantes raças de cavalos conhecidas.
São janelas que se abrem em vislumbre de um passado rico e que de forma alguma pode ficar esquecido. Em breve será lançado um livro sobre o tema, fruto da teimosia e obstinação de nossas pesquisas.
Durante o século XVII várias expedições chamadas Entradas e Bandeiras cruzaram o interior do Brasil à procura de riquezas e escravos. A mais famosa bandeira a percorrer as cercanias do local onde hoje está situada Cachoeira do Campo foi a de Fernão Dias Paes, o caçador de esmeraldas, que pelos anos de 1674 e 1675 explorou o cerrado mineiro até às proximidades da região chamada então mato dentro ou o caeté, como diziam os indígenas. Provavelmente o local já era conhecido por outros exploradores antes de Fernão, mas foi definitivamente a partir de sua trilha que a região começou a ser mais freqüentemente visitada à procura de ouro.
Segundo a tradição, cerca de cinco anos mais tarde,
por volta de 1680, um aventureiro chamado Manuel de Mello teria se estabelecido
em Cachoeira, tornando-se o seu primeiro morador. Provas concretas sobre sua
existência são escassas. Em 1709, um dos livros da Irmandade do Santíssimo
Sacramento afirma que o primeiro nome do lugar foi Cachoeira do Manuel
de Mello. Verdade ou ficção, afirma-se que ruínas existentes no antigo
Bairro Nossa Senhora das Dores, hoje também conhecido como Bairro Santa Luzia,
teriam sido da casa onde moraram Manuel de Mello e sua família. Recentemente
foi encontrada na Matriz de Nossa Senhora de Nazaré uma pequena bússola datada
pelos pesquisadores como sendo um objeto dos meados do século XVII. Este instrumento
que era típico de bandeirantes, talvez seja a prova mais convincente que realmente
famílias e aventureiros se estabeleceram em Cachoeira no último quartel dos
anos de 1600.
Na
sua Monografia Histórica, Pe.Afonso de Lemos afirma que o povoado teve
início nos anos de 1700 e 1701, quando uma grande fome se abateu sobre os
moradores da região das minas, que tiveram que se debandar à procura de alimentos.
Pela fertilidade do solo e amenidade do clima, Cachoeira tornou-se então um
dos centros de produção agrícola das minas recém descobertas. Pelo grande
interesse despertado, logo se estabeleceram ao lado dos pequenos agricultores
grandes fazendeiros, senhores de terra que, pelo acúmulo de riquezas através
do comércio de alimentos, se tornaram membros de grande poder e influência
política. Daí começaram a se fazer as primeiras construções, dentre elas a
Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, símbolo da riqueza e do fausto daquela
época. Geralmente eram feitas de pau-a-pique, adobe ou pedra. No começo eram
casas de um andar, depois casarões de dois andares, divididos entre si por
muros de pedra. Os muros ainda podem ser vistos em vários pontos. Dos casarões,
infelizmente, restaram poucos.
Desde
o começo, o nome daquele povoado, que já se fazia próspero, esteve ligado
à existência de uma cascata de águas límpidas que por ali se precipitava.
O historiador Diogo de Vasconcelos sugere que as cascatas que deram origem
à denominação "Cachoeira" são as formadas abaixo da Ponte do Palácio,
mais próximas ao centro do arraial e de certa forma bem visíveis a quem chegasse
pelo norte, da Comarca do Rio das Velhas. Outros, porém, sugerem que estas
famosas cascatas seriam as que desaguam ruidosamente à margem do antigo caminho
do Morro da Mata, cuja beleza natural havia chamado a atenção dos primeiros
exploradores que assim denominaram o lugar da "Cachoeira". Estas por
sua vez chamavam a atenção de quem vinha do sul, da Comarca do Rio das Mortes.
Por se localizar o povoado ainda na região dos campos e em homenagem à padroeira
trazida pelos bandeirantes, passou a ser o Arraial de Nossa Senhora de
Nazaré dos Campos da Cachoeira ou Nossa Senhora de Nazaré da Cachoeira
do Campo ou simplesmente Cachoeira do Campo.
Quando os exploradores paulistas seguiram rumo ao norte chocaram-se primeiro com a nação indígena dos cataguá. Com o tempo esta região limítrofe com São Paulo - a dos cataguá - passou a designar todo o sertão ignoto ao norte da Mantiqueira. À medida que os cataguá foram sendo vencidos, as expedições puderam rumar cada vez mais para o interior, palmilhando o território desconhecido.

Reconheceram logo três regiões distintas neste território, conforme a vegetação característica de cada um. Da Mantiqueira até a Borda do Campo encontrava-se a região dos Cataguá, ainda em lembrança aos indígenas. Das Serras da Borda do Campo até a Serra da Itatiaia estendia-se a região das Congonhas. Além da Itatiaia (que significa "pedra que sua") e da Serra da Cachoeira começava o sertão do Caeté. Esta nomenclatura indígena adotada pelos bandeirantes (ou muitas vezes dada pelos próprios bandeirantes que falavam na sua maioria um misto de língua indígena e português) descrevia bem a cobertura vegetal das três principais regiões. Assim, no final do século XVII e início do XVIII - quando se principiavam a encontrar as primeiras jazidas auríferas - existiam acima da região dos Cataguases, onde o serrado se alternava com matas, as Congonhas que significa "mato sumido" e que denominava perfeitamente a região dos campos: o lugar onde o mato some. Acima dos campos abria-se o Caeté, ou "mato fechado", lugar de matas espessas, quase impenetráveis.

Parece que já nos primeiros anos de extração aurífera os antigos nomes indígenas foram aportuguesados. Assim as Congonhas passaram a ser simplesmente os Campos, o Caeté passou a ser o Mato Dentro. O termo cataguá, como deixa entrever Antonil (português que escreveu sobre as Minas em 1711), passou novamente a designação mais geral. As principais áreas auríferas passaram a ser As Minas dos Cataguases, a região central - Ouro Preto, Mariana, Cachoeira, Itabirito (usando nomenclatura atual) - passou a ser as Minas Gerais dos Cataguases, ou somente as Minas Gerais, emprestando posteriormente nome à capitania.
Várias localidades tiveram como "sobrenome" a região em que se localizavam. Assim temos Cachoeira do Campo, Itabira do Campo (atual Itabirito), Congonhas do Campo, etc. No Mato Dentro temos Itabira do Mato Dentro (atual Itabira), Catas Altas do Mato Dentro, Conceição do Mato Dentro, etc. assim nasceram vários de nossos topônimos.
Aqui o leitor já terá concluído o que a muitos ainda é desconhecido: o por quê do nome Cachoeira do Campo. Os pesquisadores que se debruçaram sobre nossa história aventaram duas hipóteses sobre qual é a famosa cachoeira de quem herdou-se o nome. Alguns apontaram as corredeiras abaixo da ponte do palácio, outros as cascatas do Morro da Mata, idéia mais sedutora. O certo é que a alusão aos campos e/ou à cachoeira é sempre marcante nos topônimos que aparecem em antigos documentos: Cachoeira de Manuel de Mello, Arraial de Nossa Senhora de Nazaré dos Campos da Cachoeira, Nossa Senhora de Nazaré da Cachoeira, Arraial de Nossa Senhora de Nazaré dos Campos de Minas, Arraial de Nossa Senhora de Nazaré da Cachoeira do Campo, ou simplesmente Cachoeira do Campo, nome já corrente na segunda metade do século XVIII.
A região dos campos que fazia limite com a região do mato dentro era justamente a de Cachoeira e Casa Branca. Assim não raro encontramos nos antigos documentos Campos da Casa Branca ou Campos da Cachoeira, como nomenclatura mais genérica. Era comum alguém dizer "eu vim por estes campos da Cachoeira". E esta forma corrente, com o tempo passou a ser a forma romanesca de hoje, preferida pelos poetas: "Campos da Cachoeira".

Em novembro de 1708, Cachoeira do Campo foi palco de uma das mais sangrentas batalhas já ocorridas em Minas. Os Paulistas, como descobridores das minas, reivindicavam para si o direito total de exploração do ouro. Os que discordavam deste intento, em sua maioria portugueses, ficaram conhecidos como Emboabas (do tupi, galinhas calçudas, uma referência pejorativa ao hábito até então incomum aos paulistas de os portugueses usarem calças e botas) e eram liderados por Manuel Nunes Viana. Esta discussão tornou-se disputa armada conhecida como Guerra dos Emboabas.
A guerra consistia em conquista armada
de arraiais estratégicos para os emboabas com o objetivo de pôr em recuo os
paulistas e os fazer expulsar das minas. Segundo o historiador Diogo de Vasconcelos,
a batalha decisiva ocorreu em Cachoeira do Campo, onde os paulistas tentaram
fechar cerco às investidas dos emboabas, que acabaram vencendo após três dias
de acirrada luta. Pela manhã do terceiro dia, o solo estava cheio de corpos
insepultos e o restante do exército paulista tinha sido em sua maioria preso.
Nunes Viana optou por soltá-los com a condição de se apartarem da disputa.
O frei emboaba Francisco de Meneses teve
então a idéia de sagrar o líder, já que ele havia sido aclamado pelos portugueses
como o governador das Minas. O pároco de Cachoeira, que na época era Amador
Bueno, temendo os revoltosos, se embrenhara na mata fugindo. Assim sendo,
arrombou-se a porta da igreja, ornamentando-a e, em meio ao júbilo da multidão,
Frei Meneses, ungiu com os óleos sagrados a Manuel Nunes Viana, sagrando-o
como o primeiro governador das Minas e a primeira pessoa da história das Américas
a ser ungida com poderes majestáticos, como afirma Diogo de Vasconcelos.
Para a maioria dos pesquisadores a igreja citada no relato é a atual Matriz de Nossa Senhora de Nazaré que estava à época sendo edificada; para outros, como Augusto de Lima Júnior, a referida capela é a de Nossa Senhora do Bom Despacho, localizada na parte baixa de Cachoeira. Ainda hoje é possível ver-se vestígio de prováveis trincheiras construídas durante a Guerra dos Emboabas.
Nos primeiros anos da ocupação do território mineiro foram muitas as revoltas contra o aparelho burocrático e tributário que a metrópole portuguesa estava instalando. Entre as revoltas de caráter fiscal se destaca aquela conhecida como Sedição de Filipe dos Santos.
Em 1720, o governo português propôs a instalação de casas de fundição em Minas, onde todo o ouro descoberto seria recolhido para que 20% dele fosse mandado para a Coroa em forma de impostos. Era o acirramento da política tributária sob a forma do malquisto quinto, que agora seria cobrado com mais eficiência. Isto gerou descontentamento geral entre os mineradores. Logo começaram as manifestações pelos arraiais da região. O ponto alto da revolta aconteceu na Praça da Matriz em Cachoeira do Campo, onde ocorreu a prisão de Filipe dos Santos, um dos líderes do movimento, que agitava a população no adro da Igreja. Dali foi levado para Vila Rica onde foi enforcado e esquartejado, na presença do governador Conde de Assumar.
Ao contrário do que diz a História
Oficial, a tradição conta que Filipe dos Santos foi arrastado por cavalos
pela "Ladeira" de Cachoeira, onde foi esquartejado
sem
julgamento prévio. Padre Afonso afirmou que, se Filipe dos Santos não residia
em Cachoeira, pelo menos possuía aqui vários parentes, não sendo por acaso
sua prisão aqui. De qualquer forma a praça onde ele foi preso e onde ficou
exposto um de seus quartos ensangüentados hoje leva seu nome.
O outro líder da revolta, o português Pascoal da Silva, homem poderoso e influente, também possuía laços com Cachoeira. No testamento de João de Barros - um dos fundadores de Cachoeira - há referências explícitas que, por ocasião da escrita do testamento (em 1712), assistia ao testamentário o citado Pascoal da Silva, amigo de João de Barros. Conde de Assumar, após este episódio, sugeriu ao rei de Portugal a separação das Minas e São Paulo (que até então formavam uma só capitania). Era o nascimento de Minas Gerais.
Quando
o esgotamento das minas se tornou visível, começou a ser impossível o pagamento
das cem arrobas mínimas de ouro anuais que eram devidas à coroa portuguesa,
conforme se havia instituído. A dívida aumentou de tal forma que o governo
da metrópole, não acreditando que a exploração aurífera estava se esgotando,
resolveu cobrar à força a quantia restante, sendo chamada esta iniciativa
de Derrama. O constante atrito entre o povo e o governo, agravado por
estas medidas, causou insatisfação geral. Em 1788, começou a se formar um
movimento de conspiração que ficou conhecido como Inconfidência Mineira.
Participaram do movimento eruditos, poetas, políticos, fazendeiros, mineradores,
membros do clero e militares. Entre eles se destacaram: Tomáz Antônio Gonzaga,
José Álvares Maciel, Francisco de Paula Freire de Andrade, Inácio José de
Alvarenga Peixoto, Cláudio Manuel da Costa e Joaquim José da Silva Xavier,
conhecido como Tiradentes.
O movimento tinha como principal objetivo formar uma nação livre em Minas. Para tanto, era preciso arquitetar uma revolução e depor o governador. Tiradentes era o principal propagandista do levante; era um homem simples, pertencente ao Regimento Regular de Cavalaria de Minas, sediado no quartel que hoje se tornou o Colégio Dom Bosco. A revolta começaria em Cachoeira onde um batalhão sairia do quartel liderado por Tiradentes, percorreria uma distância de cerca de meia légua e prenderia o governador Visconde de Barbacena, residente no Palácio de Campo. Porém, a revolução não aconteceu; Joaquim Silvério dos Reis em 15 de março de 1789 denunciou o movimento ansioso em ter suas dívidas perdoadas. Silvério dos Reis escreveu em Cachoeira sua famosa carta denúncia onde relatava os planos dos inconfidentes.Todos integrantes foram presos e mandados ao Rio de Janeiro, onde três anos mais tarde seriam condenados a degredo perpétuo. Somente Tiradentes sofreu a pena máxima, sendo enforcado no dia 21 de abril de 1792. Seus quartos foram espalhados pelos caminhos de Minas e sua cabeça exposta em Vila Rica. Tiradentes é hoje herói nacional, mas Cachoeira foi esquecida pela História.
Século XIX - A decadência do ciclo do ouro
Após a repressão violenta dos movimentos da Inconfidência, acentua-se ainda mais o declínio econômico de Portugal e a decadência do ciclo do ouro se manifesta aterradoramente. A riqueza e o fausto de outrora começam a ceder lugar à pobreza e à simplicidade. Minas inteira entra em crescente crise. Povoados são abandonados. A maioria dos pequenos agricultores perde espaço para os grandes fazendeiros que, apesar da crise, conseguem manter sua influência. A população diminui drasticamente.
A
Cachoeira do século XIX foi descrita por viajantes estrangeiros como Auguste
de Saint-Hilaire, que a visitou em princípios de 1818 e Dr. Hermann Burmeister
que aqui esteve em novembro de 1851. Hilaire assim a descreve: "A uma légua
de José Henriques, a 20o 22' lat. S. e 32o 20' long., acha-se a aldeia de
Cachoeira ou N. Sra. de Nazaré de Cachoeira do Campo, cabeça de uma paróquia
que compreende três sucursais e uma população de mais de 2.180 almas. Cachoeira
foi construída sobre as encostas de duas colinas opostas, e compõem-se de
casas separadas umas das outras. Os governadores da província tinham outrora,
nesta aldeia, uma residência de descanso a que dão o nome de palácio; mas
esta casa acha-se abandonada e parece que, ao tempo de minha viagem ia pô-la
em leilão. Cachoeira deve, sem dúvida, sua fundação aos mineradores, pois
nos arredores vêem-se escavações profundas que tiveram por objetivo a extração
do ouro."
Trinta e três anos depois, Cachoeira ainda é a mesma narrada por Burmeister: "Cachoeira é um lugar assaz grande, com duas igrejas de pedra e sobre as duas margens de um pequeno rio, cujo vale parece chato e amplo. Mas, ao lado deste curso d'água, o terreno era tão íngreme que foi necessário calçar a estrada com pedras, na parte onde assenta a vila, a fim de evitar que as águas das enxurradas levassem a terra toda. Antigamente, essa região era rica em ouro, mas, atualmente, o precioso metal acha-se esgotado. Hospedei-me numa velha venda, bastante grande, na entrada norte, a qual servia também de estalagem e dispunha de muitos quartos, mas todos em estado precário. De lá até o rio levava-se um quarto de hora pelo acidentado caminho. Ao sul do rio, há algumas casas isoladas e, ao lado destas, um casarão velho e mal conservado, pertencente ao governo e que é conhecido pelo suntuoso nome de 'palácio'. O presidente da Província costumava residir ali quando passava algumas semanas em Cachoeira. Num morro mais afastado, encontra-se outro casarão, espécie de fortaleza; era o castelo que servia de quartel, hoje abandonado. A parte sul do vale é formada por campos rasos, sem árvores e, à nossa frente, levanta-se a serra da Cachoeira, íngreme mas de pouca altura, que teríamos de passar".
Apesar do aspecto decadente o século XIX também registra uma florescência cultural que ainda é sentida hoje, bem como a presença de alguns personagens de grande importância na história mineira, como o Dr. Lúcio José dos Santos, o Cel. Ramos e o Pe. Afonso de Lemos. Ao lado destes personagens aparecem as rivalidades políticas e familiares corporificadas na fundação das Bandas de Música (estudadas em outra parte). Apesar do declínio econômico Cachoeira vive uma época memorável de sua história cultural.
O final do século XIX e o início do século XX são bem retratados no livro Cachoeira do Campo - A Filha Pobre do Ouro Preto, de Lúcio Fernandes Ramos. Tem-se aí a visão de uma Cachoeira típica das "Cidades Mortas" de Monteiro Lobato. A vida social, porém, apresentava certos aspectos curiosos e atípicos a pequenos povoados, conseqüência sem dúvida dos tempos áureos, quando o contato com membros da corte estabelecidos no Palácio de Campo refinou os hábitos das famílias locais. Por exemplo, ir a bailes, assistir a serestas e apresentações das bandas fazia parte da vida noturna das pessoas. Durante o dia era comum a conversa amistosa na praça e em frente às casas. Pode-se dizer que a sociedade cachoeirense daquele tempo foi a mais tradicionalista da sua história. Aí se firmam as tradições juntamente com o desenvolvimento de uma cultura paternalista, preservando-se grandemente o nome das famílias. Infelizmente, nesta época, começa-se também a destruição de nosso patrimônio histórico, intensificada recentemente. É necessária mais do que nunca, a mobilização contra a depreciação acirrada da nossa memória, corporificada nos monumentos remanescentes.
Durante a década de 60, chegam os primeiros ares do progresso. Com a construção da Rodovia dos Inconfidentes, Cachoeira começa a se tornar pólo de desenvolvimento da região. Por estar - como no século XVIII - em ponto estratégico, logo se desenvolveu um crescente comércio, perdendo o ar de pequeno povoado. Cachoeira torna-se um lugar de vida comercial agitada, sendo considerada posteriormente um perímetro urbano do município de Ouro Preto, sendo seu maior distrito e tendo uma área urbana maior que a metade de todas as sedes dos municípios mineiros.
Com este desenvolvimento, porém, acentuou-se uma tendência que já estava sendo esboçada há alguns anos: A destruição quase sistemática de nosso patrimônio histórico e cultural. Casarões, capelas, chafarizes foram cedendo lugar a construções modernas, descaracterizando para sempre a paisagem colonial da velha Cachoeira. O desaparecimento de atividades folclóricas e a alteração drástica de velhas tradições fizeram com que, nos últimos anos, o cachoeirense praticamente perdesse a identidade com sua herança cultural.
No ano de 2000, exatamente para repensar esta situação e preservar nossa história, foi criada a AMIC (Associação Cultural Amigos de Cachoeira do Campo), organismo não governamental que tem por objetivos principais divulgar, defender e incentivar atividades culturais, bem como conservar nossas relíquias ainda remanescentes. De caráter também social, estão como empreendimentos futuros da AMIC: a criação de uma biblioteca comunitária, de uma casa de memória e cultura e de nosso primeiro museu onde se possam resguardar parte do acervo histórico ainda remanescente e que se acha agora sendo depredado e dispersado. Outro ideal importante a ser conquistado será uma escola de artesanato, onde será possível estudar e desenvolver as atividades artísticas de tradição local, visando a geração de mão de obra direcionada a atender futuros empreendimentos no setor de turismo.
Recentemente, através da AMIC, a Chama da Liberdade percorreu as ruas históricas de Cachoeira em uma grande comemoração pelos 300 anos de nossa história e em lembrança da Inconfidência Mineira, que apesar de ter tido em Cachoeira um de seus principais centros nunca foi lembrada como tal nesta celebração. Até então o Fogo Simbólico passava na rodovia silenciosamente em direção a Ouro Preto, sem saberem seus condutores, e nem o resto do Estado, que ali repousavam as ruínas do velho Palácio de Campo e do assobradado Quartel da Cavalaria. Esperamos que este esquecimento sim, seja águas passadas...
Assim a nossa história, a história de Cachoeira, apesar de todos problemas prossegue. Iniciativas particulares atuais demonstrando a conscientização de alguns moradores já começam a despontar. Várias casas históricas foram restauradas sem auxilio do poder publico, que pouco tem feito no sentido de preservá-las. Estas iniciativas além de embelezar nossas praças e ruas com exemplos de arquitetura de bom gosto (bom gosto que se vem escasseando em nossas construções atuais), demonstram que é possível passado e presente conviverem juntos sem a necessidade de vivermos em detrimento dos que já passaram, pois na realidade, o nosso amanhã começou ontem.
Gostaríamos de terminar esta breve análise histórica acentuando a importância da preservação de nossa memória histórica, da cultura de nossa gente e de nossos valores locais na formação da nossa própria identidade, que é o que de mais valor carregamos nesta vida: a certeza de que somos individuais e universais ao mesmo tempo, somos indivíduos transformadores da História e do mundo, agentes dos novos tempos e de um mundo melhor. A lição que fica da trajetória da velha Cachoeira é que devemos aprender com o passado e com os vestígios dos que já se foram, mas que insistem em se fazer presentes no anonimato de suas obras. Melhor conclusão não poderíamos dar que a do ilustre João Baptista Costa, para quem dedicamos este trabalho. Aqui finalizamos para deixá-lo uma vez mais falar de nossa história com se fosse uma poesia:
"Como a claridade que vai se perdendo na distância, no roldão do tempo e dos anos, tudo isso ia se perdendo na consciência dos homens; os que ficavam se esqueciam das tradições que os antepassados conservavam em histórias e estórias inverossímis, que desapareciam nos lábios frios daqueles que as campas guardavam. E as campas são mudas; as campas nunca falam. Se queremos ter sempre uma vela acesa, ascendamos esta na chama frouxa daquela ultima, que vai se extinguindo..."
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